Histórias para acompanhar um café, sem cinto de segurança

Meados do primeiro trimestre de 2025, passei por uma ressaca literária. Dois ou três parágrafos de um livro e já perdia o interesse. Tentativas de escrever qualquer texto, mesmo que fosse para jogar no lixo, morriam na boa intenção.

Andava injuriado, pois sempre gostei de ler. Textos rondavam minha cabeça, mas não conseguia escrevê-los. E não havia rota de fuga. Redes sociais são muito chatas — sempre a mesma fantasia colorida. Ou eu me livrava da ressaca ou eu me livrava da ressaca.

Então, decidi tomar alguma atitude. Fui ler sobre hábitos de escritores consagrados. Encontrei desde rotinas muito bem organizadas e disciplinadas, até esquisitices.

Gente que se trancava no mesmo quarto por seis horas todos os dias. Outro vestia sempre a mesma roupa. Ou quem só escrevesse com uma garrafa de uísque ao alcance dos olhos, como um corrimão para devanear ou sair de alguma ressaca literária.

Mas havia uma coisa em comum. Todos estavam sempre escrevendo algo, em quaisquer pedaços de papel, a qualquer hora.

Resolvi me obrigar a escrever todos os dias, mesmo um único parágrafo para jogar no lixo. Resultado: Nada. A frustração venceu a persistência.

Passavam os dias, passavam os ônibus, passavam os ventos, tudo passava. Só não passava a ressaca literária.

Daí, radicalizei.

Decidi me lançar num desafio sem equipamentos de segurança.

Mandei uma mensagem para um grupo de amigos: todas as sextas-feiras eu enviaria um novo conto para o grupo.

Sobre o que escrever? Ainda não sabia. Puxei três textos antigos, aprimorei e dei o salto.

Frio na barriga. Medo de não vencer a ressaca. Medo de não ter sobre o que escrever.

Noites sem sono. Um olho dormindo, outro acordado.
De repente, no meio do semi-dormir: uma ideia. Nada com coisa nenhuma, sem pé nem cabeça. Mas era um ponto de partida. No outro dia, aquele sem sentido toma corpo. Vira um conto. Cada nova semana, um novo conto.

A reação inicial dos amigos me empolgou. As ideias foram surgindo. Temas variados. Fatos entremeados com imaginação. Memória. Ficção. Farpas afiadas. Descobertas. A vida vista pelas letras.

Passaram semanas, passaram ônibus, vieram novos ventos, novas chuvas, novos contos.

Enfim, eis-me aqui, em pleno voo.

SEXTA DE CONTOS nasce desse desequilíbrio: escrever sem rede, sem mapa, sem manual, sem garantias, sem cinto de segurança.

É isso. Toda sexta-feira tem conto novo para ser acompanhado por um cafezinho saído do coador. Nem sempre bom, nem sempre fácil. Alguns nascem rápidos, outros dão trabalho, todos carregam um pedaço de quem escreve.

Se tu gostas de histórias sem muito enfeite, aparece.

Sexta é dia de conto.

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