— Você não me assume. Tem vergonha de mim? É por causa da minha cor? Por que sou pobre e trabalho atrás desse balcão?
Vozerio alto. Música ao vivo. Gente circulando. Gente rindo. Gente que pede mais um chopp. O mundo inteiro parecia falar ao mesmo tempo.
Caixa de pedidos. Pilha de garrafas. Por trás do caos, duas vozes nervosas tentam se entender.
— Montanha de copos. Não consigo te escutar — Fernando tenta brincar para aliviar.
— Nunca vamos juntos a lugar algum. Só pode ser por vergonha. Eu assusto as pessoas?
— Não é assim, você sabe. — Afastando uma garrafa, Fernando tenta alcançar-lhe o rosto e fazer um carinho, prender uma mecha de cabelo rebelde.
— Eu queria só um cinema, um passeio, um café na rua.
Fernando tenta se explicar, por trás das garrafas, dos copos, das vozes.
— Tudo a seu tempo. Eu te prometo que vamos passear muito, viajar, conhecer o mundo. Me dá um tempo.
— Eu sei que tu também sonhas com isso. Assistir a uma série de terror segurando minha mão. Acordar e fazer o café juntos.
Olham-se nos olhos.
— Isso é o que mais quero.
— Vou te dizer mais, esse desejo reprimido te faz muito mal. Tua vontade é escancarar para o mundo.
— Acredita em mim, já já vamos fazer tudo isso.
— Não me sinto bem te pressionando. Te faço mal e fico mal. Não quero isso para mim. Acho melhor a gente se separar enquanto tu resolves, se é que vais resolver um dia. — Falava para si mesmo, sabia que o vozerio do bar impedia Fernando de ouvir.
Dias sem se ver.
O bar, agora, parecia vazio, sem brilho, sem sentido.
Angústia. Dúvida. Desesperança. Será que Fernando ouviu? Será que levou a sério? Será que nunca mais volta?
Abre-se a porta do bar.
Entra Fernando acompanhado por três pessoas.
— Quero te apresentar minha mãe, meu pai e minha avó.
Apresenta os três como quem oferece um buquê de flores.
— Esse é Yago, o amor de minha vida.

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