A bênção do tempo

Há um privilégio silencioso em coabitar um tempo que entrará para a Memória por meio de vozes encantadas.

Não é o privilégio de conhecê-las, apertar suas mãos ou sentar à mesma mesa. É algo mais sutil: respirar o mesmo momento histórico.

Enquanto vivemos nossas rotinas — boletos, horários, filas, cafés apressados —, no mesmo tempo que o nosso, existem vozes que ajudam o Brasil a se reconhecer.

Ser contemporâneo de artistas geniais é habitar uma época que tem trilha sonora de consciência e de afeto.

Há momentos em que penso nisso com espanto quase infantil. Enquanto discutimos o preço do pão, alguém está cantando as certezas e incertezas da vida.

O dia escorrega sem a gente perceber. No entanto, há quem nos provoque a olhar o país com mais atenção, desconfiar das respostas fáceis, enxergar o que se esconde sob a superfície.

Há os que são pontes — entre tradição e futuro, entre o tambor e a tecnologia, entre o terreiro e o planeta. Há também aqueles que escrevem o Brasil com a delicadeza de quem sabe as dores travestidas de silêncio.

Algumas vozes são brisa ou vertigem. Outras, coragem e chão — o cheiro da terra molhada, o balanço da rede, a alegria das festas simples, a sabedoria sem pressa.

Quando cantam, o país parece lembrar de si mesmo.

Atravessaram ditaduras, exílios, censuras, liberdade, perdas, reencontros, desencantos e esperanças. Em cada fase não apenas sobreviveram: deram linguagem ao que se sentia antes mesmo de saber nomear.

O mais curioso é que esse privilégio é discreto. A consciência chega devagar, geralmente quando uma canção antiga parece ter sido escrita para o dia de hoje.

Então entendemos: eles não são o passado. Estão aqui — na memória viva, suavizando a cacofonia das cidades — nas palavras e melodias que continuam acontecendo dentro da gente.

Eles lembram que o Brasil não é apenas crise, ruído e pressa. O Brasil também é invenção, poesia, resistência. Uma beleza que se impõe.

Um dia, inevitavelmente, todos serão chamados de “era”. Serão capítulos de livros, documentários, efemérides. Mas nós não os conhecemos como verbete.

Nós os vivemos.

No rádio do carro, no vinil embriagado, no palco, na nossa companhia desafinada. Na lembrança que volta sem pedir licença.

Há épocas que produzem artistas. A nossa produziu entidades.

E nós tivemos o privilégio maior: viver sob a música delas.

Salve!

Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Gal Costa, Dominguinhos, Belchior…

e todos os que cantam nossos tempos e compõem a trilha sonora de nossas vidas.

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