Nzinga era filha do vento

O sol de Daomé não apenas aquecia, ele abraçava. Os pés descalços riscavam a terra. O frescor da chuva que se armava no horizonte acariciava o rosto.

O mundo era um lugar sem fronteiras. Ela era o próprio movimento. Saltava entre as pedras e, em sua inocência, apostava corrida com as gazelas que se divertiam com o desafio.

​Naquela manhã, o pomar da savana estava generoso. Nzinga comia frutas rindo enquanto o suco escorria pelo queixo. A liberdade tinha aquele gosto: doce e infinito. Para ela, o mundo era um rio entre árvores que guardavam as histórias de seus ancestrais.

​​O vento parou. Os pássaros calaram-se de repente. A respiração da mata ficou em suspenso. O silêncio veio antes do golpe. O primeiro grilhão não foi de ferro, mas de medo. Vultos cheirando a morte, com olhos de abismo e a pele marcada, romperam a mata. O grito de Nzinga foi sufocado por uma mão brutal. Ela lutou, mordeu, agarrou-se às árvores, à terra, aos ancestrais. Mas a violência era uma rede que a envolvia. Foi aferroada como gado. A dor do metal quente em sua carne marcou o fim de sua infância e o início de sua mercadoria.

​O porão do navio era o avesso do mundo. Ali não havia vento, apenas o bafo quente da morte e o balanço doentio das ondas. Nzinga, comprimida entre corpos chorando em línguas diferentes, perdeu a noção dos dias. O azul do céu foi substituído pelo negrume daquele caixão flutuante e pelo cheiro de dor, sangue e excrementos.  Durante semanas, o balanço do mar se misturou à sombra da morte.

​Ao desembarcar no cais do Recife, a luz do sol a cegou. Não era mais Nzinga, era a peça número 42. Vendida entre gritos de leiloeiros e dentes examinados como os de um cavalo. Foi levada para o verde monótono dos canaviais.

​A rotina era um ciclo de exaustão. Sob o estalo do chicote, ela cortava a cana doce. Suas mãos sangravam uma dor amarga. O corpo, ainda em crescimento, curvava-se sob o peso dos feixes e do sol que agora castigava em vez de abraçar.

​Mas o pior não era o campo. O pior era o chegar da noite.

​Quando a lua subia, Nzinga não descansava. Era arrastada pelos filhos do senhor, adolescentes que ainda não passavam de meninos, embrutecidos pela soberba e a certeza de terem sido escolhidos por Deus para desfrutarem de prazeres sem limites.

Para eles, ela era um brinquedo novo, uma curiosidade exótica. Eles a faziam dançar até a exaustão, seus cabelos crespos eram puxados como crina. Sentiam-se machos, o orgulho do pai.

Entre risadas e escárnios, o corpo de Nzinga permanecia ali. Mas a alma escapava para o vento de Daomé. ​

Deitada no chão frio após a diversão acabar, ela fechava os olhos.

No escuro de sua mente, ainda corria com as gazelas. Eles podiam possuir seu corpo, mas o vento que soprava das memórias, esse não poderiam chicotear.

Nzinga parou de sonhar quando sentiu uma nova vida dentro de si.

A terra rachada fere os pés. A mata não respira. O mormaço confina.

Deixe um comentário