Ressonância

Olho para o tubo. Observo a parafernália da sala. Cenário de ficção científica.

Será que vão me dar uma injeção e vou acordar num laboratório reptiliano?

As moças. Simpáticas. Compenetradas. Tão inocentes. Procuram uma veia em meu braço.

— O senhor pode deitar aqui, os pés pra lá e a cabeça pra cá. Por favor, deixe as mãos ao lado, bem junto ao corpo. Ajuste bem este fone de ouvidos. São só 20 minutinhos, passam rápido.

Em silêncio, a máquina me leva para dentro de um tubo que parece uma tumba.

— No meu velório, se me colocarem num caixão desses, vou levantar e xingar todo mundo. E se tentarem me maquiar, vou sentar e fazer buuuu…

— Já sei, enquanto estou nesse tubo-tumba, vou pensar num conto sobre um cara que, no meio do próprio velório, sai do caixão indignado — o cheiro das flores dá nojo.

O defunto vai se juntar na roda de cachaça e piadas. Concentrados na própria voz, no vinho e nos salgadinhos, ninguém percebe…

De repente:

Ioum-ioum-ioum-ioum-ioum-prum-prum-prum-prum-plac-plac-plac-plec-plec-plec, fiuuuiiimmm, fiuuuiiiimmm – acionaram o botão dos ruídos mais estridentes do planeta – buzina de ar comprimido, ferro contra ferro, moto com escapamento aberto passando por um túnel. Soltaram uns loucos numa loja de ferragens no meio da madrugada.

— Essa buzina me lembra aquele dia em que subi a Serra do Rio do Rastro de moto e vi um caminhão descendo. Esperar ou acelerar pra pegar a curva antes?

Fiuuuiiimmm, fiuuuiiiimmm, fiuuuiiiimmm…

— Será que travei a porta do carro? Não sei. Putz, vai ficar aberto. Deixa ver o que fiz. Parei, abri a porta, olhei a faixa do estacionamento. Peguei o saco com os documentos do exame. Subi. Não sei se fechei.

Ioum-ioum-ioum…

— Dou risada quando Nelson Jacaré começa a contar nossas armações. Me irrito quando algum sem graça tenta ser espirituoso. Sujeitinho invejoso! Pera aí, o defunto sou eu?! Não, com esse barulhão, não se consegue nem morrer em paz.

Prum-prum-prum-prum…

— A chuva roncava lá para os lados do mar. Precisava subir rápido, não dava para esperar o caminhão. Resolvo acelerar e chegar primeiro na curva. Vai ser apertado, se não der certo, a confusão tá armada.

Bumbum paticumbum prugurundum… entrou uma Escola de Samba?

— Fome. Também, jejum desde ontem. Duas laranjas. Laranja conta?

Ioum-ioum-ioum-ioum-ioum… caminhão me obriga a sair da pista.

— Essa semana a mega vai pagar 160 milhões. O que que vou fazer com 160 milhões? Não, acho que nem preciso ganhar sozinho. Posso dividir com mais uns três. 40 milhões já é uma boa grana. Isso, vou ganhar 40 milhões.

Ioum-ioum-ioum-ioum-ioum-prum-prum-prum-prum-plac-plac-plac-plec-plec-plec, fiuuuiiimmm, fiuuuiiiimmm…

— Será que fechei o carro? Mas, se não fechei, não há problema. Lá dentro não tem nada, só meu material de treinar. Não. Pera aí, meu tênis novo tá lá. Sacanagem, vão roubar meu tênis novo!

Ioum-ioum… prum… de novo…

— O defunto tá aqui, vivinho, enchendo a cara! — gritou Nelson Jacaré, meu irmão de fé e de trombadas.

Mas não o levaram a sério, ele já estava tão passado que as palavras saíam numa maçaroca.

— Senhor, senhor, a ressonância já acabou, o senhor pode sair.

— Pô, justo agora, quando eu ia começar a gastar 40 milhões!

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