Portão azul

Ela sorve o breve prazer da vigília. Pensamento livre.

O silêncio dele preenche a escuridão.

Lá fora, o mundo parecia leve, quase gentil. Até o despertador quebrar o quinhão de paz.

Enquanto ela passava o café, ele comentou, sem tirar os olhos da folha do jornal:

— Esse seu novo corte ficou diferente.

Não era um elogio. Era uma demarcação.

Ela inspira fundo. Evita ruídos ao expirar.  O olhar, absorto, pousa no portão azul.

Saiu para o mercado. O portão azul rangeu ao abrir. Andava com pressa discreta, ouvindo passos, temendo as sombras. Centavos contados.

Em casa, os objetos tinham voz. O copo colocado com força sobre a bancada. O suspiro alongado. A página do jornal virada com força excessiva. Passos lentos, ritmados, marcando o assoalho de madeira. O muxoxo sem causa.

A calma pior do que qualquer grito. Ele não levantava a voz. Raramente franzia a sobrancelha. O medo vinha da ausência de aprovação. De olhos que continuavam ali, mesmo quando ele não estava.

As xícaras nunca quebravam, os objetos nunca voavam. As palavras, sim. Afiadas, medidas, calibradas, feriam sem deixar marca.

À noite, ele dormia o sono dos senhores. Ela ficava de olhos abertos. A respiração dele ditava o ritmo. Seu corpo na cama era um mapa do Chile, esticado, contraído. Espaço mínimo calando forças tectônicas.

O medo não andava armado. Asfixiava lentamente, dia após dia, com as mãos macias do silêncio.

Chovia forte quando ela foi ao mercado. Precisou se proteger na parada de ônibus. Os olhos foram atraídos por uma caixinha com livros. Uma placa dizia para levar e devolver quando terminasse de ler. Sem pagar nada.

Folheou à toa. Até se deparar com a frase grifada — Nunca esqueça de respirar. Escondeu o livro no fundo da sacola, debaixo das folhas de alface.

Naquela noite, deitou-se olhando o teto. O ressonar dele dominava a casa.

Mas havia uma dissonância. O silêncio dela já não era o mesmo. Discreta, uma fissura de coragem se insinuava.

Pela manhã, como todas as manhãs, o espelho do banheiro refletia uma mulher intacta. Não havia hematomas, nenhum osso quebrado. Apenas desbotada, como arte deixada ao sol.

Sorriu tímida para o reflexo, ousando treinar a curva dos lábios.

Pela primeira vez, ela imaginou o portão azul se abrindo para um lugar onde o silêncio não fosse ameaça.

Rachaduras crescem.

Portões se abrem sem ranger.

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