Joguinho modorrento. 44 minutos do segundo tempo. O x O. Cerveja choca. Não sai nem briga.
O artilheiro chega perto do árbitro. Abaixa-se. Finge ajeitar a chuteira. Cochicha:
— O ‘ome’ não vai gostá si a gente não ganhá.
Corre pra área. Recebe a bola em descarado impedimento. Cotovelada. Derruba o goleiro e chuta pro gol.
O Bandeira agita a bandeira desesperado, feito biruta em dia de vento sul.
— Goolllllll. Legallll. — Crava o árbitro.
Final do jogo. Enxame de jornalistas. Brasil inteiro de olho. O árbitro justifica a decisão.
— Olhei para o Bandeira e vi que ele estava com a camisa pra fora do calção. Isso é contra o regulamento. Não admito que o Bandeira trabalhe desleixado em jogo meu.
O debate sobre a etiqueta de comportamento dos assistentes de árbitros tomou conta do dia a dia. Programas esportivos, ex-jogadores, influencers de moda, economistas, especialistas em geral, cada um com seu veredito.
— Tem que moralizar, senão vira esculhambação — opina o taxista com o passageiro.
— O árbitro deve manter o jogo dentro das regras para não perder a autoridade — sentencia o advogado na feira.
— Daqui há pouco vão exigir até maquiagem nos bandeirinhas — debocha o ascensorista do ministério.
— Minha vizinha disse que viram o juiz saindo de um motel com uma Ferrari.
— O que é que a vizinha fazia no motel?
— Ora, foi orar!
Um canal alternativo, WEB Geral, decidiu entrevistar transeuntes. Foi a vez da vozinha bater na tecla.
— ‘xcuta, e a falta? Por que ninguém fala do jogo? Do impedimento?
Quanto mais a vozinha insistia, maior o ruído em torno do despojamento do Bandeira.
No Palácio da Justiça…
— Excelências, peço vênias para destacar uma grave infração ao Regimento e às Normas de Decoro desta Veneranda Corte. No momento de prolatar a sentença, o desembargador trajava toga em completo desalinho com a etiqueta deste Douto Tribunal. Em razão da evidente desconsideração, meu cliente vem a esta egrégia corte propugnar pela anulação da sentença.

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