Fui dormir depois da meia-noite preparando a palestra.
Precisava acordar às quatro. Meu voo saía às seis.
Passei a madrugada brigando com o relógio. Ele venceu. O maldito esperou que eu fechasse os olhos e bip…
bip…
BIP!
BIP!
BIP! BIP! BIP!
Quando o sono bateu, já era quase hora de acordar. Sonhei. O toque do despertador era barulho de chuva no telhado. Me deixei embalar naquele chuaaa… chuaaa…
Acordei num sobressalto. Atrasado.
Tomei um banho. Gelado, para animar.
Em pé, engoli o café meio morno da garrafa térmica num copo de vidro e saí correndo.
— Ainda bem que é cedo e o trânsito deve estar tranquilo — pensei.
Surpresaaa!
O pneu do carro estava baixo.
Chamei um uber.
Cancelou.
O segundo aceitou… cancelou também…
Tentei o terceiro.
O aplicativo não encontrava nenhum carro.
Comecei a suspeitar de um boicote. Querem me impedir de chegar ao aeroporto.
Finalmente, um motorista aceitou a corrida.
— O que está havendo, meu amigo? Todos estão cancelando.
— Uma árvore caiu no Morro da Lagoa. As duas pistas estão trancadas.
— Mas, eu vou pela Osni Ortiga, não preciso passar pelo morro.
— Ocorre que todos estão fazendo o mesmo desvio, inclusive os ônibus.
É tranqueira geral.
— Dá teu jeito, eu preciso chegar no aeroporto antes das cinco e meia.
Ofereço um troco a mais.
Ele dispara.
Acostamento. Contramão. Fila dupla. Buzinas berrando.
Ufaaaa… 5:33h. Cheguei.
Pego a mochila de qualquer jeito.
Disparo feito louco pelo aeroporto.
Desvio de bancos e canteiros. Quem foi o ‘jênio’ que colocou canteiro no meio do caminho?
Chego esbaforido no balcão da companhia.
Imploro para a moça segurar o avião só até eu conseguir chegar na porta.
Procuro o laptop para mostrar o bilhete.
Laptop? Laptop?
Revirei a mochila.
Carregador.
Cueca.
Nada.
Terror.
Cadê o laptop?
— PUTAQUEOPARIU!!! … desculpa, moça. Deixei o laptop no uber.
A moça pede meu CPF. Procura o bilhete. Me olha desassossegada.
— Senhor, por favor, me confirme seu nome e seu destino.
Controlo a irritação.
Repito meu nome.
Ela me olha com um sorriso complacente.
— Senhor… seu voo é nesse horário mesmo.
Fez uma pausa.
— Só que é amanhã.
— Amanhã? Que dia é hoje?
— Trinta e um de março.
Olho para ela sem entender.
Deu branco.
— Trinta e um de março?!
Olho para ela de novo.
Quase dou um beijo!
— Hahaha! Minha palestra é amanhã! Meu voo é amanhã! Primeiro de abril!

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