Sábado é na casa do Setenta-e-um. Tainha escalada, feijoada ou mocotó. Causos, lorotas, bebericar e, claro, dominó.
Pedras de osso, branco e preto, aguardam na mesa de tampo verde.
Setenta-e-um, além de dono da casa, é o peru mais enxerido das rodas de dominó. Gosta mais de dar palpites do que de sentar para jogar. Desconfiam que ele tem muita garganta e pouco jogo.
No eco da mesa e da cachacinha com xarope de groselha, preferida de Setenta-e-um, piadas internas ganham novas versões. A batida firme se mistura ao som das risadas e histórias.
Belizário, sempre curioso ou indignado com alguma questão, não perde os sábados provocando e atiçando a discussão.
— Olha o nosso filósofo! Qual é a de hoje, Belizário?
Na mão, a inseparável caneca do café tirado direto no bico do coador.
Rindo, sem olhar o que fazia, Esfregão vacilou e quebrou a ponta. O parceiro xingou. O tempo fechou. Setenta-e-um mudou de assunto.
— Que é que houve, Belizário?
— Não dá pra acreditar — Belizário puxou a voz rouca lá do fundo do fígado — minha neta, vocês sabem que é engenheira e é preta que nem eu, tava trabalhando lá pelo Norte, lá pros lados do Mato Grosso. Daí, o pessoal percebeu o sotaque e descobriu que ela era do sul. Como sempre, logo perguntaram se era gaúcha.
— Olhó, lhó, lhó, tás tolo! — ela fez questão de arrasar no sotaque — Eu sou é manezinha de Florianópis.
— Eles não acreditaram — Belizário quase queimou a língua com o café.
— Como assim, não acreditaram?
— Poisentão, é isso mesmo. Eles não acreditaram que ela fosse de Florianópolis. Nesse Brasil aí pra cima, todo mundo pensa que aqui em Santa Catarina só tem europeu, louro de olhão azul. Que não existem negros.
— Também, tu olha as propagandas, na TV, nas revistas, só aparece coisa de alemão, festa de alemão, comida de alemão, alemão na praia vermelhão.
— Nunca aparecem as nossas festas, as nossas coisas e a nossa gente daqui.
Peixe-seco, outro velho marinheiro, só olhou de esguelha.
— Ahn, e a gente é o quê?
Setenta-e-um balançou a cabeça e resmungou.
— Pois, é… o pior é que a gente mesmo não dá valor, parece que faz as coisas escondido.
As opiniões se atropelavam.
— Não é bem assim, olha o samba, a brancaiada toda vem louca pra dançar.
— É, mas é só pra aparecer, jogar no celular. Esse tal de influenci aí.
— Falaí, Peixe-seco, tu que é diretor de bateria da nossa Unidos da Lua Mansa, o quê que houve lá na Escola?
— Isso, contaí, eu soube que tu andas enfezado, hahaha!
— Colocaram uma loura da cintura dura e rebaixaram a Maria Rita. Ninguém samba como a Ritinha. Mas os baba-ovo, preferiram a galega só pra aparecer na TV. — Peixe-seco girou uma pedra na mesa, separada para o momento certo.
— É bem isso, eles só querem é fazer de conta pra ganhar dinheiro.
Esfregão contou o jogo antes de largar a pedra.
— Vocês é que são ressentidos. Tem espaço pra todo mundo, é só saber cavocar e se dedicar.
— Vai, vai cavocar pra ser juiz, ou diretor de alguma empresa, pra ver se tu consegues.
Tenente Aragão ficou fulo. Bateu na mesa.
— Ressentido? Outro dia no meu prédio. No meu prédio, vê bem! O zelador novo não deixou minha filha brincar no parquinho.
— Filha de empregada não pode ir nos brinquedos. — voz espremida, arremedando o zelador.
— Quando cheguei para ver o que estava acontecendo, ele ainda tentou me encarar insinuando que eu estava mentindo, não poderia ser proprietário.
Belizário deu outra golada no café quente e tossiu. Esfregão pediu uma com groselha para Setenta e um.
Peixe-seco bateu com a pedra na mesa.
— Matei com a barata!
O silêncio pairou por alguns segundos. O rádio sussurrava “Na subida do morro”, samba antigo de Moreira da Silva.
Belizário ergueu a caneca de café, num brinde mudo.
Setenta-e-um chamou para o mocotó.

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