A pandemia chegou numa terça-feira, como alerta do apocalipse no meio da madrugada.
E com ela o decreto: nada de diarista.
Tetê e Cacau se entreolharam na cozinha e tomaram a decisão que tornaria aquela semana inesquecível.
— A gente dá conta — disse Cacau, com a convicção de quem nunca esfregou um banheiro na vida.
No primeiro dia de confinamento, desconectaram os dois filhos dos celulares e se determinaram a fazer faxina completa. Digna de bloco cirúrgico.
— …como esse apartamento nunca viu.
Afinal, o vírus estava por aí, invisível e traiçoeiro. O apartamento de três quartos precisava ser desinfetado do rodapé ao teto.
Cacau foi ao armário de serviço e trouxe Q’Boa e Creolina com a solenidade de quem carrega perfume sofisticado. Cinco litros de cada. Embalagem família.
— Aqui, metade de Q’Boa e metade de Creolina para cada balde.
— Vai diluir? — perguntou Tetê.
— Pra quê? Mais concentrado, mais limpo.
— Vocês dois começam desse lado, nós pegamos este.
Camisa de mangas longas, calças legging, bonés e lenços, luvas até os cotovelos. A expedição sanitária saiu pelos cômodos. Encharcando o que os olhos e as mãos alcançavam — chão, maçanetas, soleiras, o controle remoto, a casca da banana que estava na lixeira. À tarde, o apartamento cheirava a banheiro industrial. Janelas foram escancaradas. Cheiro impregnado.
À noite, Tetê começou a piscar demais.
— Cacau, meu olho tá coçando.
Coçou. Cacau soprou. Coçou de novo. O olho ficou vermelho. Depois o outro. Uma mancha rosada apareceu no antebraço. Depois no pescoço.
Naqueles primeiros dias de março de 2020, a internet era um campo minado. Ninguém sabia nada, mas havia receita pra tudo. Listas de sintomas circulavam no WhatsApp com letras maiúsculas e emojis de caveira. “FEBRE, TOSSE, FALTA DE AR — FORMIGAMENTO, CALAFRIO, DOR DE CABEÇA, INSÔNIA, SENSAÇÃO DE MORTE IMINENTE”.
Tetê bombardeada. Não sabia no que acreditar. Tudo era possível.
Olhou para o próprio braço. Os olhos no espelho do banheiro.
Conclusão imediata.
— Peguei covid.
Trancou-se no quarto às nove da noite. Empurrou a cômoda contra a porta. Cacau foi para o sofá. Comunicação, só por mensagens. Protocolo: água e comida deixados na bandeja em frente à porta, sem contato, sem abraço, sem respirar o mesmo ar.
Os filhos acharam emocionante. Montaram uma polia com barbante e uma caixinha de sapato para alimentar a mãe pela fresta da janela.
— Eu vou morrer — Tetê dizia ao telefone, com uma serenidade dramática que impressionava os amigos. — Aproveitem para me ligar enquanto ainda estou aqui.
— Não me mandem flores. Só se for sem cheiro.
No terceiro dia de isolamento dentro do próprio quarto, ligou para Renato, amigo de infância e dono de cartório.
— Renato, preciso fazer um testamento. Com urgência.
Pausa do outro lado da linha.
— Tetê, você é bailarina. Bai-la-riii-na. É a mulher mais sarada que conheço. Você não tem cinquenta anos.
— Eu tenho covid.
Outro silêncio.
— Vou verificar os documentos necessários.
Foi Cacau quem ligou para o Dr. Fábio, amigo e clínico geral, em desespero velado.
Fábio chegou na manhã seguinte. Parecia ter saído de Chernobyl: máscara N95, óculos de proteção, avental descartável, luvas duplas, propé nos sapatos.
Os filhos fazendo vídeos de tudo.
Tetê abriu a porta do quarto. Máscara encobria todo o rosto. Lenço encobria os cabelos. Mangas. Luvas. Meias. Uma nesga para os olhos. Não deixou os filhos nem espiar.
O médico perguntou sobre os sintomas. Ela descreveu tudo com riqueza de detalhes. Fábio anotou. Franziu a testa. Perguntou sobre os últimos dias. Chegou à parte da faxina.
— Quanto vocês usaram de Q’Boa?
Cacau mostrou o galão. Quase vazio.
Fábio tirou os óculos de proteção, esfregou o rosto com a luva e ficou um momento em silêncio contemplativo. Não acreditava no que via e ouvia.
— Cacau, a Q’Boa deve ser super diluída, 10 por 1. Vocês usaram assim, integral?
O protocolo foi jogado num canto. Os quatro olhavam Dr. Fábio.
— Tetê — disse ele, com a gentileza de quem precisa dar uma notícia delicada, — você tem uma alergia ao hipoclorito de sódio. Comum. Sem risco de vida. Nada de coronavírus.
Silêncio.
— Basta um anti-histamínico. E nunca mais usar alvejante puro na sua vida.
Tetê ficou olhando para ele por um longo momento. Depois olhou para Cacau. Depois para os galões de Q’Boa e Creolina encostados na parede.
— Cancela o velório e o testamento — ela disse, pegando o celular.
Uma gargalhada explodiu no apartamento.
Tetê foi tomar banho, com sabonete comum. Bem diluído.

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