Aquilo que se faz quando ninguém está olhando

Silas Macedo, coach esportivo, chegou antes de seus seguidores.

Boné fúcsia. Número bem alinhado no peito. Tênis novo rangendo no asfalto. Camiseta com a logo de sua grife, a SM Sports – Sucesso é Mérito.

Cumprimentava a todos com frases curtas sobre disciplina, perseverança e sucesso. Ao iniciar o aquecimento, ainda na tenda de apoio, pediu o microfone.

— Corrida não é só resistência. É comportamento — enfatizou. Fechou a preleção com o slogan de sempre.

— Moral é o que a gente faz em público. Ética é o que se faz quando ninguém está olhando.

Aplausos entusiasmados aqueceram o frio da madrugada. O sol ainda não despertara quando se ouviu o tiro de partida.

Dada a largada, Simas correu os primeiros metros junto da equipe. Deixou-se ficar no final do grupo, orientando os mais inexperientes.  Aos poucos, foi-se se confundindo na multidão, até o perderem de vista.

No primeiro cruzamento, desviou do percurso. A moto de um assessor já o esperava. Subiu sem pressa. O amigo arrancou.

Bairros silenciosos. Placas de quilometragem, postos de água, competidores — foram ficando para trás.

Estacionaram em uma curva, quatrocentos metros antes da linha de chegada. Simas desceu, alongou as pernas, esperou. Jogou água no rosto e no peito da camisa.

Os líderes passaram primeiro, depois os demais. Quando o fluxo engrossou, Simas entrou na pista. Ajustou a passada, deixou o suor aparecer.

Na reta final, aproximou-se de uma corredora. Reduziu o ritmo. Num cavalheirismo teatral, abriu o braço em gesto largo, cabeça baixa reverencial, e permitiu que ela cruzasse a linha. Aplausos enternecidos dos espectadores.

Chegou logo depois, braços erguidos, procurando a câmera.

Mais tarde, comentando a prova, voltou ao tom motivacional.

— O esporte revela quem a gente é. Sem dedicação e perseverança, não há mérito.

Ofereceu a medalha ao grupo.

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