— Nossos dentes são iguais, feitos do mesmo barro.

Se alguém estranhava quando ele e Juca diziam ser irmãos, Tião respondia rindo com todos os seus incontáveis dentes brancos.

Juca, por sua vez, sempre acabrunhado.

Os dois foram encontrados, bebês de um dia, na porta do Abrigo de Menores. Criados juntos, sempre na mesma cama, partilhando as mesmas mamadeiras, jamais se separavam.

Para Tião e Juca, a vida não fazia sentido sem o outro. Suplementares. Juntos, eram muitos mais.

Se alguém ameaçava machucar Tião, lá estava Juca. Quando mandava a diplomacia, lá estava o sorriso de Tião.

No futebol, Tião era pura malemolência. A bola passava por espaços mínimos deixando os adversários atordoados. Se algum nervosinho resolvia atropelar depois de ser entortado por um drible, lá estava Juca para acalmar.

Quando Juca precisava de um pontinho na nota para não repetir o ano, lá estava Tião encantando o Professor.

Unha e carne, diziam uns. Corda e caçamba, comentavam outros. Juca e Tião, pensavam os dois.

O mundo não lhes deu mães. Mas deu irmão de vida.

Até o dia em que os irmãos conheceram Joana.

Suave, sorrateira, como lembrança boa, ela entrou pelos olhos e nunca mais saiu dos pensamentos.

Joana, filha de um mundo violento.

Joana precisava colo.

Joana não se permitia fraquezas.

 

Juca não encontrava vocabulário. Não entendia o que estava sentindo.

Tião só pensava nela, queria estar com ela. Não falava nada, Juca não compreenderia.

Pela primeira vez, havia um não-dito. Pela primeira vez, mudavam de assunto.

Era a tragédia se insinuando.

 

Joana não deixava escapar um fio do que sentia. Mas sentia, muito.

Ela queria muito a alegria de Tião. Precisava de Tião para a vida ter sabor.

Ela queria a segurança, a autoconfiança de Juca. Precisava de Juca para chegar onde queria chegar.

Joana queria Tião. Joana queria Juca.

Tião queria Joana.

Juca queria Joana.

 

Maior que o mundo. Maior que as gaiolas. Maior que os estreitos.

O amor e suas tramas.

Joana ficou com Tião.

Tião pensou ter alcançado as estrelas.

Joana ficou com Juca.

Juca sentiu-se o dono do mundo.

Mas estrelas sem Juca eram uma noite sem música.

O mundo sem Tião era um deserto sem sorrisos.

Tião queria Joana, mas não havia sentido sem Juca.

Juca queria Joana, mas não havia sentido sem Tião.

Joana queria Tião.

Joana queria Juca.

Tião-Joana-Juca um todo que as gaiolas do mundo não comportavam.

Mas o mundo não assiste calado quando as gaiolas são ameaçadas.

Joana-Tião-Juca, acuados.

Novamente abandonados na porta de um mundo a ser enfrentado e desbravado.

Dentes afiados contra nós que amarram gaiolas.

Tinham uns aos outros.

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