Acordei com um caroço no meio das costas.
Não, não era uma corcunda repentina, era o colchão pedindo arrego.
Fui até a loja. Simplório, puro e desavisado.
— Por favor, eu quero um colchão.
Descobri que esta pergunta singela abre um portal. Trata-se de uma senha que te empurra para dentro de um labirinto de realidades paralelas, de onde só consegues sair depois de um curso intensivo e uma peregrinação ao Monte Santo de Morfeu.
Cheguei e, com o destemor de quem desconhece o perigo, pronunciei a senha:
— Moça, boa tarde, eu queria comprar um colchão.
— Boa tarde, o senhor já sabe o tipo?
— Sim, eu quero do tipo que serve pra deitar, ler e dormir.
Desencadeou-se O Processo.
Ela inspirou e me olhou como se estivesse diante do improvável. Um ser recém saído da caverna.
Nem tive tempo para respirar e me acostumar às luzes. Sem aviso prévio, sem anestesia, sem um tapinha para desinibir, fui apresentado a um questionário em linguagem cifrada.
Uma iniciação que prometia mudar minha vida.
Começamos pelas molas. Até aí, tudo bem. Depois vieram as densidades. Ainda resisti. Quando entramos nas fibras de bambu com memória emocional e sensores de sonho, percebi que já não havia retorno…
…mola ensacada, mola contínua, KGF (ou seria GFK, ou KFG?), silicone, espuma da NASA, densidade 28, densidade 33, fibra de banana, fibra de bambu, longarinas, membranas, térmico, antialérgico, ortopédico… um cipoal.
— Caso o senhor deseje conhecer melhor, pode fazer um teste. Temos cabines apropriadas com especialistas para orientá-lo.
Cabines à meia luz furta-cor. Suaves e singelas. Quentes e eróticas. Azuis analíticas. Laranja investigativas. Nunca escuridão… jamais sono solto.
— Por meio de seu celular, o senhor receberá informações para acompanhar o sono. Escaneamento da coluna, contagem de batidas do coração, qualidade do sono, oxigenação do sangue.
Quando, quanto, como, onde, com quem?
— E se as nuvens detectarem que o sono não obedeceu aos padrões mínimos aceitáveis pela comunidade internacional?
Depois da imersão, minha vontade era comprar uma esteira de palha.
— Eu também prefiro dormir em rede. Inclusive já estamos para receber redes ou esteiras conectadas. O senhor vai se sentir bem mais acompanhado.
Até hoje, não sei se ela estava brincando ou falando sério.
Enfim, ela me convenceu a comprar um colchão que vai embalar meus sonhos cantando “Boi-boi-boi-boi-da-cara-preta”, com a voz de minha Mãe quando me ninava.
— O senhor leva a certeza de voltar aos sonhos mais felizes de sua vida.
Agora, estou me concentrando para iniciar o Curso Preparatório de Lençóis, com Extensão para fronhas, travesseiros, capas de colchões, capas de travesseiros, pijamas, saúde financeira, empreendedorismo.
Cadê o botão de sair?
Durma-se com um barulho desses!
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Amigos, conheçam meu novo livro – VENTOS DE REBOJO, um romance.
Produzir livros custa caro, muito caro. Não conto com nenhum programa de financiamento ou patrocínio. Então, decidi lançar uma campanha de pré-venda.
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Obs.: VENTOS DE REBOJO não é um livro de contos, não se trata de uma compilação do blog Sexta de Contos. Trata-se de um romance, uma ficção baseada em momentos históricos.

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