— Quem foi o energúmeno filho-da-puta que fez isso? — Jessica estava possessa, mas se manteve fria.
Admitida há pouco na empresa, estava no período de experiência. Achou melhor engolir a indignação, por enquanto.
Um meme, uma montagem grosseira sobrepondo o rosto de Jessica ao corpo de uma lutadora, no meio de um dohyō, o ringue de fardos de palha de arroz, em cena típica de Sumô.
Espalhou-se rapidamente por toda a empresa. Os colegas de trabalho na mesmice de todos os dias, cada um cuidando de si, mas Jessica se imaginou motivo de cada riso escancarado, cada sorriso disfarçado, cada ironia. Toda a empresa gargalhava às suas custas. Para piorar, quem se solidarizava quase não disfarçava o risinho incontido.
Esse tipo de montagem circulava há algum tempo. Os alvos principais eram mulheres e três rapazes que, apesar de discretos, os boatos diziam ser gays.
No início, os memes eram tolerados como simples piadas, inocentes. Depois, houve os que ficavam furiosos, esbravejando ameaças. Alguns, simplesmente ignoravam. Também houve quem gostasse, até mandaram ampliar para colar na parede ao lado da mesa.
O autor se tornou cada vez mais ousado. Passou à sensualidade, em seguida descambou para a pornografia.
Fugiu do controle. Viral. Quem seria o autor? O que pretendia? Qual seria a próxima vítima? Outros anônimos pegaram carona, incontáveis imagens passaram a circular nas redes corporativas.
Até aparecerem chefes em situações comprometedoras. A diretoria decidiu intervir, determinando punição severa para quem fosse descoberto produzindo ou repassando tais mensagens.
As costumeiras sindicâncias internas nunca chegaram a ninguém ou, se chegaram, os resultados foram engavetados.
Até mexerem com a pessoa errada.
Jessica, mesmo vulnerável, decidiu não deixar barato.
— Vítimas de bullying, uní-vos — comentou com a companheira de vida.
No curso de Engenharia de Software, a tímida Ana Cláudia encontrou socorro em Jessica quando era encurralada por bullying. Desde então, mantinham sólido relacionamento.
— Vou precisar de teu lado gênio em Inteligência artificial. — Jessica contou para Ana Cláudia sobre os memes.
À noite, vestiram metal. Maquiagem demarcando sombrias intenções. Jaquetas pretas com spikes, correntes, anéis pesados. Ana Cláudia abriu uma garrafa de vinho tinto. Invocaram Iron Maiden. A vitrolinha não era apenas decoração. Os primeiros acordes de “The Number of the Beast” preencheram o apartamento.
Um brinde. Um beijo. Um pacto.
— Algo inteligente, inesperado, mas que não me crie problemas, não posso perder esse emprego.
— Minha Querida, nem ele, nem ninguém, jamais esquecerão esse dia.
— Vai beber do veneno feminino – brindaram à vingança.
Quando se sentiram perversamente inspiradas, Jessica e Ana Cláudia partiram para o plano. As orelhas do energúmeno não o deixaram dormir tranquilo.
Naquela noite, ao som de Iron Maiden, Ana Cláudia desenvolveu um aplicativo, uma IA, que apelidaram ELAS – Elegante Lembrancinha de Amiga Secreta.
Jessica convocou Denis, designer gráfico. Produziram diversas montagens e depositaram na nuvem corporativa.
Denis sugeriu Paulo André, do departamento de informática, uma das vítimas de meme, retratado com o vulgar clichê de um gay escrachado.
— Brincadeiras, eu aceito. Mas esse mau gosto, essa baixaria. Não vou perdoar, jamais. Vai beber veneno na mesma taça — havia resmungado na ocasião.
O colega aceitou levar Ana Cláudia até os computadores depois do expediente. Rastreando o servidor principal, rapidamente descobriram o autor dos memes.
O intocável.
— Surpresa zero! — exclamou Jessica.
— Ele é filho do chefe — segredou Paulo André.
— Filho?
Casado com Carmen, herdeira milionária, pai de dois filhos legítimos, Juan Alejandro até hoje treme dos pés à cabeça. Jamais esqueceu, nem deixaram que esquecesse, o dia em que Elvira entrou na sala e colocou um envelope sobre a mesa. O resultado de um teste de DNA comprovava que João Alexandre era filho de Juan Alejandro Gorka com Elvira, a secretária.
Jessica mordeu o lábio inferior.
A Inteligência Artificial criada por Ana Cláudia era capaz de fazer análise de cada imagem enviada a partir do local onde estivesse instalada. Se fosse montagem, substituía por um dos memes criados pelo amigo designer.
Acessaram o computador do criminoso e instalaram ELAS.
As primeiras horas do dia, quando todos abriam seus computadores, era o momento preferido pelo energúmeno para atacar.
Naquele dia a empresa parou. Ninguém desgrudou os olhos dos computadores ou dos celulares.
João Alexandre.
Onipresente.
Nu.
— Nu?
— Nuzinho!
Em destaque, como atração principal, um pintinho, um bilrinho, um pauzinho, um bilequinho, uma coisinha ridícula no lugar de pênis.
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“Magê recorda o momento em que pisou no Aeroporto Hercílio Luz pela primeira vez como passageira. Viveu tanta alegria que o coração batia descompassado como tamborim nas mãos de aprendiz.
— E esse calor aqui em Paris? Eu toda preparada para o frio — o verão parisiense de 2008 foi o primeiro de tantas surpresas e desafios.” (Ventos de Rebojo)
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