Nhaca de rua

Olício abriu a porta da rua, inspirou fundo, soltou todo o ar como aprendera na ioga. Encheu olhos e pulmões de liberdade.

Na véspera do dia em que completaria 87 anos, fugiu.

Mandou mensagem para a família.

— Fui respirar um pouco.

Depois, decidiu completar a mensagem dando explicações.

— Negativas! É o que ouço. Como uma criança, só me dizem não, não e não.  R.I.T.A. decide o que é bom ou mau, o que comer, quando dormir. Até como, quando ou por que posso ter prazer. O cercadinho menor, menor, menor. Vou respirar. Preciso gritar, sair na chuva, no sol, no vento. Sem protetores, sem alarmes. Preciso do acaso.

Fugiu à procura da cidade e de si mesmo.

O vento soprava sem direção, o sol roçava a pele como uma carícia, a dissonância da rua feria os ouvidos.

Na praça, parou, admirando a alegria genuína de uma criança correndo. A mãe, como fêmea farejando ameaça aos filhotes, veio veloz, agarrou a criança e a envolveu num abraço protetor. Os olhos fuzilavam pânico, como se ele carregasse todos os perigos do mundo.

Seguiu a caminhada. Quadras de esportes. Equipamentos para exercícios. Lanchonete com jovens gargalhando como se soubessem o segredo da vida.

— Depois dos 70, ganhamos o dom da invisibilidade. Apenas as onipresentes R.I.T.A.s nos detectam e se preocupam — sorriu amargo. — Só nos enxergam quando atrapalhamos o trânsito.

Como esperado, a bexiga mandou sinais. Nenhum banheiro. Tentou um templo do outro lado da praça. O segurança, gentil como um guarda de presídio, barrou.

— Para usar o banheiro, precisa deixar o dízimo.

Olício sentiu o quadro apertar. Ou resolvia ou as calças ficariam manchadas. Correu atrás de uma árvore.

Um guarda o escorraçou.

Olhou as ruas. O asfalto quente expirava um bafo de forno. Os ruídos vinham em ondas, empurrando-o para trás.

Para onde?

Velocidade. Tempo ínfimo. Buzinas. Bate-estacas. Olhares esquivos, temerosos. Mastigam enquanto olham telas. Não saboreiam nada.

Pé no buraco da calçada.

— R.I.T.A. teria me avisado. Mal acostumado, condicionado, desaprendi até a andar.

Sinal verde. Sinal vermelho. Não conseguiu alcançar o outro lado. Carros xingando. Alunos rindo.

Sentiu sede. Olhou em volta — nada. Não havia água. Não havia conforto.

Apenas um grupo de moradores de rua, abrigados na marquise de um prédio abandonado. Para R.I.T.A., seria alerta máximo.

Curioso, foi se aproximando. Pela primeira vez no dia, alguém o olhava sem medo, pressa ou repulsa.

Odor forte. Bebidas. Corpos. Roupas dormidas. Lama.

Um deles alertou.

— Cuidado, meu velho!

— Por quê? Corro algum perigo?

— O perigo é o amigo ficar com nhaca de rua e não conseguir mais voltar para o meio dos seus.

O grupo inteiro ri. Não riem dele, riem com ele, por ele.

Perguntou onde havia água.

— Aqui a gente divide o que tem. Às vezes é pouco, às vezes é só companhia — coçava a barba desgrenhada com a solenidade de um professor.

Ofereceram fumo. Não parecia fumo legal. Deu só uma pegadinha. Sentiu-se à vontade. Riram um riso solto, desses que não pedem licença. Gargalharam. Falavam todos ao mesmo tempo, contando casos. Olhares que abraçavam.

Olício percebeu uma senhora, enrolada num cobertor velho, reclamando de dores lombares. Pediu licença, recomendou alguns exercícios de respiração. Depois, pegou o cobertor, enrolou como um pequeno tronco roliço. Mandou que ela colocasse o rolo atravessado no chão

— A senhora deita sobre o rolo. A cabeça e pés bem esticados. Agora coloque o rolo do cobertor atravessado nas costas fazendo uma cruz, abre os braços, no mesmo sentido do cobertor. Agora relaxa bem. Relaxa todo o corpo. Deixa todo o peso colar no chão. Assim. Respira fundo. Relaxa.

Passados alguns minutos, Olício mandou que ela levantasse. Sempre em movimentos cuidados, observando o que fazia.

— Dotô, parece milagre. A dor passou. Foi Deus que mandou o senhor! Muito obrigado. Vou fazer isso todo dia.

— Amigo, volte sempre que quiser respirar.

— Essa amizade… vou guardar como um segredo de liberdade.

Um longo dia.

Voltou.

Voltou?

 

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“Nico cresceu livre pelas ruas de Taguatinga — jogar futebol, pescar, roubar frutas, correr atrás de foguetes nas festas juninas. 

— Vida de fazer inveja, um sonho para qualquer menino — Johann enchia o peito de orgulho, enquanto lembrava a própria infância de trabalho duro na roça. ” (Ventos de Rebojo)

 

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