Terra úmida, folhas caídas, raízes, cheiro de mato depois da chuva.
Não conseguia entender nada.
Está preso debaixo de um automóvel.
À volta do carro, uma multidão. Paramédicos, polícia, curiosos. Tumulto geral. Todos falavam, todos palpitavam. Só ele tentava compreender.
— Moço, cuidado com as pernas dele.
— Como esse automóvel veio parar aí?
— Afastem-se. Abram o círculo. Afastem-se.
Ele também se pergunta. Como veio parar ali?
Em meio à mata. Atravessado na trilha.
Não encontrava resposta.
Decidiu refazer os passos desde manhã cedo.
Acordou com o chamado do aracuã, como todos os dias. Viu mensagens no celular. Depois rolou tela no banheiro. Nem lembra dos vídeos que viu. O celular foi a invenção mais perfeita para companhia naquele momento. Ele não gosta de ficar ali sentado, concentrado no que se faz no banheiro.
Jogou comida para os passarinhos no quintal. Molhou as plantas, olhou uma por uma para ver se havia alguma folha solta a ser arrancada. Adora os cactos. Tão imponentes, tão independentes, tão senhores de si.
— E a samambaia? Linda com seus cabelos rebeldes.
Limpou as sujeiras dos dois gatos e do Paco. Trocou as rações.
Fez alguns exercícios, um apanhado de trejeitos e contorções que foi aprendendo por aí.
Tomou banho.
Colocou água para ferver. Ajeitou a mesa. Morava sozinho, mas fazia questão de mesa completa, com manteiga, queijo, mel, geleias, pastas. Tudo! Mesmo sabendo que comeria apenas um pouquinho de um ou outro.
Tomou café ouvindo músicas de um Brasil profundo — catiras, modas de viola, xotes, milongas. Outra boa utilidade para o celular.
Ligou para Silvia, desejou boa sorte na apresentação. Lamentou não poder acompanhá-la. Não conseguiu ninguém para ficar com os gatos e o Paco enquanto estivesse fora. Três dias de viagem para ir e voltar até a cidade dela.
Ligou para a mãe, sempre chorosa desde que ele decidiu mudar para a capital.
Mexeu no conto que estava trabalhando: um sujeito que sonhou com a Morte indignada por ter que levar uma menina.
— Quatro aninhos! Pra quê pôr no mundo uma criança e, logo em seguida, me obrigar a levá-la? Isso é o pior da minha tarefa.
A Morte olhava para ele, choraminguenta, querendo entender. Discutir filosofia, sentido da vida. Mas ele só queria tomar café olhando as plantas, sem pensar.
Ainda não estava satisfeito com o título.
Mas uma caminhada ajudaria a pensar. Era sempre assim, quando empacava num trecho do que estava escrevendo, saía para caminhar. Nada como uma trilha para inspirar, colocar as ideias em ordem e costurar o que estava falhando.
Chamou Paco e foram para a trilha. Ele corria atrás de qualquer coisa que se mexesse. Adorava beber água nos córregos que desciam do morro.
Paco sempre corria na frente. Farejava, fazia xixi, entrava no mato e voltava a caminhar ao lado.
Um estrondo! Alguma coisa pesada rolou morro abaixo.
E agora…
…está ali, debaixo desse carro.
Virou a cabeça devagar. Lá longe, entre as pernas da multidão, viu Paco. Sentado. Quieto pela primeira vez na vida, olhando para ele.
Só então percebeu não sentir nada.
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Catarina — Lavadeira, mulher do morro. Avó de Magê. Dura por necessidade, amorosa por natureza. Bate na neta com vassoura e chora enquanto bate. Quer para Magê o que nunca teve.
Margarido — Sambista do Morro do Céu. Malandragem, ginga, charme. De dia, carregando caixas. À noite dançando. É usado por Nico e Marcos como laranja — sem saber.
Magê — Neta de Catarina, criada no Morro do Céu. Negra, inteligente, determinada. Consegue fazer doutorado na Sorbonne, em Paris. Representa a mobilidade e a ruptura — a folha que o vento leva longe de onde nasceu.
Nico — Ex-militar, atlético, de família com raízes alemãs. Ascendeu socialmente à custa de oportunismo e corrupção. Encantador na superfície, desonesto nas entranhas. Vive entre a alta sociedade e o submundo.
Eugênia — Esposa de Nico. Vaidosa, perfumada, obcecada com status e a “alta roda”. Dorme embalada por sonhos de ascensão social. Vive na aparência.
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Obs.: VENTOS DE REBOJO não é um livro de contos, não se trata de uma compilação dos contos do blog. Trata-se de um romance, uma ficção baseada em momentos históricos.

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