Eu devia ter ficado em casa naquela noite.

Fui ao Bar do Adelar porque alguém disse que Narciso Junior ia aparecer nas mesas. Há dez anos, isso era sinônimo de espetáculo.

Eu tinha visto Narciso jogar contra o Mineirinho, um sujeito que veio de três estados de distância só para ser humilhado em quatro partidas. Vi Narciso encaçapar a bola da vitória de olhos quase fechados, como se o verde do pano fosse extensão do seu próprio sangue.

Naquele tempo, ninguém duvidava. Os experientes chegavam confiantes e saíam mudos. Narciso não jogava sinuca — ele administrava humilhações com elegância.

Foram tempos em que ele transformou o jogo de sinuca em arte. Quem viu, viu. Quem não viu, acha exagero.

Mas isso foi antes da fama subir à cabeça.

Narciso começou a exigir cachê para jogar. Cada vez mais altos. Quanto mais ganhava, mais queria.

Antes, as vésperas de jogos importantes, ele passava em silêncio, estudando ângulos, dormindo cedo, com o olhar fixo num ponto qualquer da parede como quem treina a mira para o dia seguinte. Agora, só queria boteco com a galera em volta bajulando. Corrente grossa brilhando no peito aberto, relógio vistoso, risada alta, copo erguido, contando casos que cresciam a cada rodada. No dia seguinte, a mão tremia. Não muito. Só o suficiente.

Foi assim que perdeu para o Mineirinho, numa noite com ingressos disputados como se fossem final de Copa do Mundo.

Foi assim que perdeu para Carlinhos, que não era nem sombra.

E foi assim — essa foi a noite que ninguém esquece — que perdeu para o Tiaguinho.

Tiaguinho tinha dezessete anos. Pegava o taco como quem pega emprestada uma caneta delicada, sem jeito, pedindo desculpa antecipada por estar ali. As mãos dele tremiam de verdade — de nervoso, de respeito, por estar diante do mito.
Narciso passou a noite anterior numa farra que terminou às seis da manhã. Chegou pro jogo com os olhos vermelhos e o sorriso ainda mais largo que o normal, como se o sorriso pudesse disfarçar o resto ou fosse suficiente para derrotar o pirralho.

Perdeu de cinco a um.

E não foi o placar que doeu. Foi o jeito como Narciso saiu de lá rindo, dizendo que ‘deu uma moral pro garoto’, ‘deixou ele ganhar porque tava começando’, ‘da próxima ele ia ver’.

Ninguém acreditou. Mas ninguém disse nada. Ele perdeu para sempre — não a partida, mas a unanimidade.

Daquela noite em diante, Narciso não jogava mais para ganhar. Jogava para os outros lembrarem que ele já tinha sido capaz de ganhar. E havia sempre plateia. Sempre alguém que tinha ouvido falar do lendário Junior e queria ver de perto.

Foi numa dessas noites que eu vi a cena que queria não ter visto.

Narciso encenava diante de uns cinco ou seis rapazes que o olhavam com aquela admiração de quem só conhece a história, não o presente. Pegou o taco com a mesma firmeza teatral de sempre, fez aquele giro de pulso que era sua marca, aquele gesto que antes vinha antes de uma tacada impossível.
Posicionou as bolas, mediu o taco como a conferir se estava à altura de seu talento. Passou giz na ponta. Soprou o excesso. Abaixou-se no nível da mesa, ajustou as bolas. Olhou nos olhos de cada um dos admiradores. Sorriso de esguelha para Tiaguinho.

Exigiu silêncio.

A tacada saiu resvalada. Xoxa. A bola branca rolou enviesada. Quicou. Caiu pelo chão. Rolou triste até debaixo de uma cadeira.

Silêncio. Vergonha alheia.

Narciso riu — aquele riso que eu já conhecia, o riso para disfarçar o fiasco.

E foi buscar a bola debaixo da cadeira, de joelhos, ainda rindo, ainda explicando, enquanto os rapazes trocavam olhares que eu conhecia bem demais — os mesmos olhares que eu provavelmente também tinha feito.

O rosto dos garotos refletia a admiração se transformando em triste decepção.

Saí antes do fim. Não aguentei ver o resto.

E até hoje, quando alguém fala de Narciso Junior — do verdadeiro, dos tempos da sinuca arte, tenho que separar as duas imagens na cabeça, como quem separa um beijo de um tapa na cara.

Eu queria poder desver aquela noite.

Narciso continua lá, no Adelar, repetindo a mesma pose para quem chegou tarde demais pra conhecer o verdadeiro Junior.

Deixe um comentário