Olhos arregalados

No meio da meia-noite, estilhaços no silêncio.

Mas antes, vamos recuar até as cinco da tarde.

Tainha assada. Ova com limão. Roda boa. Conversa animada. Divertida. Inteligente. Os assuntos flutuavam sem pauta nem destino.

Cerveja. Cachaça. Rum com Pureza e Mate. Ninguém tomava detergente.

Até que a dona da casa ofereceu um café.

Cafeteira francesa ou Italiana? Sul de Minas ou do Cerrado? Café moído ou Grãos? Torra clara, torra média? O café tomou conta da conversa. Açúcar? Vade Retro!

Daí, o bestalhão aqui se deixou levar e tomou café depois da cinco.
Resultado?

Morfeu ficou indignado.
— Café depois das cinco? Tu vais te ver comigo. Aliás, nem vais me ver.

Eu, que durmo às nove da noite, às onze estava mais acordado do que às cinco da tarde. Os pensamentos brincando de atropelar um ao outro na maior velocidade.

Detalhe importante: moro sozinho.

Vou para o computador escrever.

Naquela hora em que a casa já deveria estar dormindo… ouço…
…sussurros, Beethoven, estalidos.
Um frio sobe pelas pernas até a espinha.
O silêncio tenta se impor.

A geladeira sofre de sonambulismo: geme, mia, fala sozinha. A máquina de lavar, quando acaba de trabalhar, toca Beethoven. As paredes estalam, batem – em protesto contra o barulho das outras.

Eu já as conheço, afinal, estamos juntos há 14 anos. Mesmo assim, a espinha sempre treme quando elas começam a sussurrar no meio da meia-noite.

Enfim, tudo volta ao normal. O silêncio domina. Só o sono não se manifesta.

De repente: Panelas…
…barulho de panelas!
— Péraí, panelas já é demais. Esses fantasmas estão ficando abusados.

Sou protegido por dois indígenas. Dois espíritos.
Não acreditam?
Uma vidente me deu garantia.

Será que eles decidiram fazer alguma pajelança na cozinha?

E agora? O que faço? Vou até lá?
Pé ante pé. Devagarinho. Sem barulho.
Dou com o dedinho do pé na quina da banqueta.
— PUTAQUEOPARIU!

Chego na cozinha.
Prendo a respiração.
Fecho os olhos.
Acendo a luz…
…um nariz redondo…
…ao redor da bolota, uns bigodes.
O coração em dúvida se para ou dispara.
Atrás dos bigodes,…
…a noite também de respiração suspensa…
…dois olhos arregalados …

Ficamos ali. Estáticos. Sem saber o que fazer.
Eu olhando pra ele, ele olhando pra mim.
Nenhum dos dois ousava nem respirar.

Até os grilos suspenderam a cantoria.

De repente.
— DESCONECTANDO.
Uma voz metálica estilhaça o suspense.

— Ahnn?!!!
Nem pensei, se penso, eu paro…
…bato o pé no chão…
…o saruê derruba uma penca de bananas e sai disparado em direção à fresta da porta da sala.

Depois de recuperar a dignidade, vou até o computador berrar, extravasar, no ouvido da soundbar. Ela tem que parar com a mania de gritar quando se desconecta automaticamente.

Juro que nunca mais tomo café depois das cinco.

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