No antigo Beco do Júlio, atual Rua Júlio Dias
Humberto estava com onze anos quando a família mudou para Coqueiros.
Logo fez amizade com os meninos da vizinhança. No sábado, sempre havia racha no campinho do América.
O que chamavam de campo era um descampado de areia batida no alto do morro, com acentuada inclinação para um dos lados.
Além de enfrentar os adversários, o desafio maior era driblar uma valeta enviezada que cruzava pelo meio do campinho, sem esquecer do mato segurando a bola nas laterais. Quem conseguia dominar ali no Ameriquinha, já carimbava o currículo como craque.
Humberto foi convidado para jogar no sábado seguinte. Ninguém sabia como jogava. Logo, por força das imutáveis leis da várzea, foi escalado como goleiro. A trave seguia a topografia do campo, um lado no alto, outro ladeira abaixo.
Jogo disputado, o Beco do Júlio jogava contra a turma da rua de baixo.
2 a 2. Tempo esgotado. Quem fizesse gol ganharia. Ninguém admitia perder.
A turma de baixo rouba a bola. Cai nos pés de João Patada. Ele parte enfurecido, olhos chispando brasa.
Humberto percebe aquele caminhão sem freio vindo pra cima desembestado…
Aqui nossa história chega à uma bifurcação.
Naquela fração de segundo em que João Patada levantou o pé e armou o petardo, abriram-se infinitas possibilidades. As reações de Humberto poderiam ser as mais variadas. Caminhos diversos poderiam surgir.
Seguimos dois desses universos.
Universo Um
Humberto atira-se nos pés do atacante no momento do chute. A bola fica presa entre o pé detonador e o peito de Humberto.
Todos correm em socorro.
— Tudo bem. Não deu nada. — Humberto levanta, ainda se contorcendo, com certa dificuldade para respirar, olha lá na frente e joga a bola no pé do lateral esquerdo.
O lateral domina a bola, arranca e chuta de sem pulo. Gol do Ameriquinha.
Ninguém teve dúvida, nem a Turma de Baixo: Humberto foi o herói do jogo.
— Se jogar daquele jeito, nos pés do João Patada, é muita coragem! — todo o morro celebrou o feito.
Humberto vibrou.
Erguer-se do chão e seguir em frente, decidido, virou o seu jeito de estar no mundo — antes mesmo de aprender que existia outro jeito.
Universo Dois
Humberto vacila. Ameaça pular nos pés do atacante. Recua. Protege o rosto.
João Patada não vacilou. Largou um míssil. Rasteiro, no meio da trave. Humberto só viu a comemoração da Turma de baixo.
— Se ele, pelo menos, tivesse pulado na frente pra atrapalhar. Mas é um frouxo, amarelou na hora — na resenha do Ameriquinha, não havia dúvidas de quem foi o culpado pela derrota.
Humberto não esqueceu aquela fração de segundo. Recuar e ouvir depois o veredito dos outros virou o seu jeito de estar no mundo — antes mesmo de aprender que existia outro jeito.
Universo Um
Desde aquele sábado no Ameriquinha, Humberto passou a ser chamado para todas as rodas — soltar pandorga, jogar botão, caçar, nadar, roubar frutas. Todos o queriam junto.
Duas semanas depois. Primeiro dia de aula de Humberto na escola nova. Sentia-se como se fosse um veterano.
Foi recebido por uma turma de colegas que fez questão de mostrar a escola e dar as principais dicas.
Naqueles tempos de sinais discretos e sonhos nervosos, meninas espiavam de longe e ensaiavam bilhetinhos.
Quando a professora chamou alguém para ir ao quadro, Humberto logo levantou a mão se oferecendo, mesmo sem saber direito como se fazia aquela conta.
Universo Dois
O gol da Turma de Baixo ficou incrustado na testa. Por onde Humberto passava, sentia o peso do cochicho.
Não teve coragem de contar para o pai sobre o jogo de sábado.
Dona Jurema fez bolo de cenoura e chamou as crianças da rua para um lanche à tarde. Todos adoraram os doces e o suco de pitanga. Ficaram admirados com o campo de futebol de botão que Humberto ganhou de presente do avô. Foi uma tarde memorável. Ali, dono do campinho de feltro, ele era o dono do jogo.
Duas semanas depois. Primeiro dia de aula na escola nova.
Humberto entrou ressabiado. Ficou pelo pátio observando enquanto os outros meninos corriam e se empurravam.
Viu meninas rindo em um canto.
As carteiras eram em duplas. Humberto escolheu uma vazia. Ficou sozinho. Quando a professora pediu para alguém ir ao quadro, um sussurro correu a sala.
— Se ela chamar Humberto, ele vai amarelar, capaz de se mijar!
Universo Um
Humberto acompanhava o pai na construtora da família. Gostava de ficar nos canteiros e observar as obras pessoalmente.
Depois de acabar a universidade, aos 25 anos, assumiu à frente de uma equipe de doze homens em uma obra na Lagoa.
Na véspera da concretagem da laje, o escoramento cedeu num canto — erro de outro encarregado, já demitido. Madrugada, chuva fina, ninguém querendo decidir entre refazer tudo ou arriscar.
Humberto subiu no andaime, redistribuiu o escoramento com as próprias mãos, gritando instruções por cima da chuva. A laje ficou de pé. A obra seguiu no prazo.
Contou a história para o pai na segunda — sozinho na chuva, sozinho resolvendo. Não mencionou Vadico, que percebeu o problema e ajudou durante toda a noite. Nem o Cirilo, que acertou o escoramento extra.
Os doze homens passaram a chamá-lo de Chefinho, com orgulho na voz. Humberto gostava do som daquilo — era a mesma sensação do gol salvo no Ameriquinha, multiplicada por doze. Ganhou a confiança da equipe.
Começou a falar mais alto nas reuniões. A interromper quem discordava antes da frase terminar. Achava, sem nunca formular em palavras, que havia nele algo maior.
Universo Dois
Humberto, aos vinte e cinco, trabalhava de auxiliar administrativo na construtora do pai. Mas era nas noites de quinta, nas baladas, que ele de fato existia.
Tinha descoberto como agradar e comprar gente. Não custava muito — uns ingressos para um show, uma rodada de cerveja, um perfume importado para uma menina.
Passou a ser a agenda da turma. Ligavam pra saber onde havia algo rolando ou onde conseguir ingresso para aquela festa. Riam alto quando ele entrava. Alguém sempre guardava lugar.
Não perguntavam por ele quando não estava por perto — perguntavam pelo ingresso, pela cerveja, pelo presente. Mas a sensação de entrar e ver o bar inteiro perceber, essa ele não trocava por nada. Era gostoso ser, por uma noite, o centro de alguma coisa.
Quando pensavam em uma viagem para assistir algum show em outra cidade ou um acampamento na serra, não havia dúvidas, o organizador seria Humberto.
Descobriu cedo que agradar pessoas rendia prestígio. Mais tarde, descobriu que rendia votos.
Universo Um
Aos quarenta e cinco anos, Humberto era proprietário da Construtora Litoral. Ocupava uma sala de vidro na Beira-Mar, mas ele ainda preferia o canteiro.
Uma obra no Itacorubi — um lote em aclive com mais de trinta graus. Outras empresas já haviam recusado. A fundação não fechava as contas, nem em prazo, nem em custo.
Foi Jonas, o mais novo da equipe, quem trouxe a solução. Radier estaqueado, contenção escalonada, um jeito de driblar a inclinação em vez de brigar com ela. Humberto ouviu calado. Disse que aquilo não ia funcionar.
— Gente nova gosta de reinventar a roda para aparecer.
Na reunião com o cliente, na semana seguinte, apresentou o mesmo método. Trocou duas ou três palavras, ajustou uma cota, chamou de “minha solução para o desnível.”
Jonas, sentado ao fundo da sala, não disse nada.
Pediu transferência no mês seguinte. Humberto assinou a liberação sem perguntar o motivo.
— Gente que não tem estômago para esse trabalho — comentou, fechando a pasta.
Uma tarde, perto do trailer da obra, ouviu o mestre Vadico conversando com um ajudante.
— Trabalhar debaixo dele é osso. Tudo é sombra, nada cresce.
O comentário já rodava o canteiro havia algum tempo. Humberto ficou parado um segundo, queixo travado, depois seguiu andando, pasta debaixo do braço.
— São invejosos — disse baixinho para ninguém. — Não aguentam quem entrega resultado.
À noite, na sala de vidro vazia, decidiu sozinho, como sempre, qual prumada a obra seguiria.
Universo Dois
Aos quarenta e cinco anos, Humberto despachava num gabinete na Câmara, paredes cobertas de fotos de aperto de mão — prefeito, governador, cantor sertanejo, jogador de futebol. Secretária na porta, cafezinho sempre pronto para as visitas.
Foi numa quinta-feira que Seu Aldori entrou, boné na mão, mãos calejadas de pedreiro. Contou que a família ia ser despejada do barraco no morro da Caeira — reintegração de posse marcada para sexta, mas uma assinatura da Secretaria de Habitação poderia suspender.
— O senhor me conhece desde criança, vereador. A gente jogava bola lá no campinho do Ameriquinha, lembra?
— Pois é, Aldori, tempos bons, hein — Humberto sorriu, olhando o relógio.
Chamou a assessora.
— Vê uma cesta básica pro Seu Aldori, e anota o caso pra gente acompanhar. — Prometeu falar com alguém na Secretaria, ainda naquela tarde.
Um fotógrafo entrou para registrar a entrega de um título de utilidade pública a uma ONG, e Humberto se levantou para a foto, mão no ombro do diretor, sorriso largo.
Seu Aldori saiu do gabinete com a cesta básica debaixo do braço e a reintegração de posse marcada para o dia seguinte, intacta.
A ligação para a Secretaria nunca aconteceu.
Universo Um
Humberto está aposentado. Observa um neto jogar bola. O garoto hesita diante de uma dividida e alguém na arquibancada grita.
— Vai nele!
Naquele instante, Humberto sente um déjà vu.
Volta ao Ameriquinha.
Desde os onze anos, sempre que surgia uma decisão, ele precisava ser o homem que se atirava nos pés do atacante. Não podia demonstrar dúvida. Não podia recuar. Não podia admitir fraqueza. Era o herói.
Isso o ajudou a construir empresas, liderar equipes e tomar decisões difíceis. Mas também o impediu de ouvir, pedir ajuda, sentir.
— Passei sessenta anos defendendo aquele gol.
Universo Dois
Humberto assiste o neto errar um pênalti no torneio interno da escola. O menino ficou arrasado.
Alguém grita.
— Isso é do jogo. Acontece.
Naquele instante, Humberto sente um déjà vu.
Volta ao Ameriquinha.
Passou a vida tentando compensar aquele instante.
Comprou amizades.
Buscou aprovação.
Distribuiu favores.
Precisou ser querido porque, lá no fundo, continuava tentando provar que não era o menino que amarelou.
— Passei sessenta anos pedindo desculpas por aquele gol.
Na Rua Júlio Dias, antigo Beco do Júlio
Humberto sobe o morro remoendo lembranças.
Não existe mais o campinho com a valeta correndo no meio.
Não existem mais as traves descaindo.
Não existe mais o Beco do Júlio ou a Turma de Baixo.
Não faz ideia de onde andaria João Patada.
Mas, aquele jogo nunca terminou.
Em algum lugar, um menino ainda vê João Patada correndo em sua direção.

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