Januário Ribeiro conseguiu um trabalho na praça. Desempregado, pai de três filhos, aceitou antes mesmo de saber do que se tratava.
A praça ficava logo abaixo do morro. Descendo pelo atalho, pouco mais de um quilômetro do barraco até lá.
Só depois, já com o uniforme laranja colando no corpo, soube qual era o serviço. Iam construir um tal de Espaço Pets Praça da Abolição.
— Nome bonito pra levar cachorro de apartamento.
O tecido grosso não deixava o vento entrar. Suor em bicas. Ainda assim, Januário não reclamava. Fazia as contas e esquecia o desconforto — dias trabalhados, comida em casa, um agrado qualquer pros meninos.
Enquanto cavava as valas, ouviu alguém explicar:
— Aqui vai ser tudo fechado com tela. Liberdade e segurança total.
Ele ergueu os olhos. Tentou imaginar aquilo pronto. Não conseguiu, lá no morro não havia nada nem parecido.
Mais tarde, mandaram parar o serviço. Chegou o pessoal da prefeitura.
Montaram palanque improvisado. Microfone chiando. Babás com crianças. Cuidadores de idosos e de cachorros. Gente que transitava e funcionários da Prefeitura. O homem de camisa clara começou a falar como se estivesse inaugurando alguma coisa já existente.
— Este espaço foi pensado com todo cuidado. Teremos áreas distintas, respeitando as necessidades dos animais. Não medimos esforços, empreendemos o que se pode chamar de melhor da Tecnologia do Carinho para nossos irmãozinhos que tanto nos dão sem pedir nada em troca.
Januário encostou na pá. Olhou em volta. A terra revirada, os montes de areia, o cheiro de tinta nova das telas ainda enroladas.
— …equipamentos de estímulo, estruturas lúdicas, grama, arbustos, além de cuidadores e toda a segurança. Tudo voltado ao bem-estar de nossos amiguinhos…
Tentou acompanhar. Perdeu-se nas palavras. Só guardou uma: Segurança. Seus olhos subiram o morro.
No fim, bateram palmas. O homem desceu, apertou mãos, sorriu para fotos.
Uma jovem, calçando sandálias altas, aproximou-se do grupo de trabalhadores e pediu para posarem cavando e colocando grama. O fotógrafo exigiu sorrisos e fez algumas fotos. Ela retornou ao palanque. Esqueceu de agradecer.
O serviço voltou.
No alto do morro, os meninos jogavam bola. O campo era a rua mesmo — chão duro, pedaços de pedra, lama antiga que nunca secava, carros e gente passando.
A bola escapou.
O filho de Januário desceu um pouco para buscá-la no mato. Parou no meio do caminho.
Lá embaixo, viu o retângulo sendo desenhado no chão. O pai, pequeno dentro do uniforme laranja, esticando a trena com outro homem.
Os olhos de menino viram longe. Lugar cercado, arrumado. Com banco pra mãe sentar, grama pra correr, escorregador, casinha pra brincar de esconder.
Imaginou que poderia jogar na grama e marcar gol numa trave branquinha.
Depois subiu de novo, gritando que tinha achado.
— Bora, Uelinton, não adianta se esconder, vocês vão dançar.
Uma sirene soou forte.
O furgão da PM parou no meio da rua.
O menino apertou a bola contra o peito.
Dois PMs armados até o cérebro prensaram o menino contra o furgão.
— Tá escondendo o quê no mato, moleque?
A PM se foi.
O jogo continuou.
Desviando das pedras. Pés afundando na lama.
Na Praça da Abolição, Januário enxuga o suor.
Olha para o morro.
Abaixa a cabeça.
Volta ao trabalho.


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