Os manezinhos da Ilha olham para cima e veem muito mais do que nuvens.
Desde crianças aprendem a ler os céus.
As cores, o comportamento dos pássaros, o formato das nuvens — desenham a cartilha que permite saber o humor do tempo. Os ventos são os escribas.
O mar, as nuvens, a mudança da temperatura, o comportamento das águas, a caladinha da lagoa. A Joaquinha flat. Não é só clima. É linguagem, presságio, memória.
Aplicativo?
— Olhó, lhó, lhó, o que é isso? Pra quê, pra quê?
Ler os ventos é um saber que vem do mar e da história, vem com o respirar. Não se aprende nas escolas, não existe um momento da vida em que os pais chamam os filhos para ensinar.
Apenas se sabe.
Céu pedrento, chuva e vento. Arco longe, chuva perto. Nuvem baixa, sol que racha. Nuvem que se desfia é sinal de ventania. Biguá mergulhando, vento sul chegando. Vento norte — calor e tempo bom. Vento sul — frio e mar bravio. Rabo de galo. Carneirada. Maresia grossa. Não se sabe que sabe, mas se sabe. Mesmo que seja apenas uma nesga, todos sabem. Vem com o tempo.
Na Ilha da Magia, ventos fazem parte das famílias. Entram nas casas com toda a sem-cerimônia. Intrometem-se nas conversas. Mudam os humores, preenchem os silêncios, aliviam dores e suores.
São como animais de estimação: ora incomodam, ora são chamados de pentelhos espaçosos, ora sobem no sofá, dormem na cama ou sentam-se junto para ver um filme e comer pipoca.
Os ventos moldam a geografia e a vida, seja o Nordeste, o Sudoeste, o Norte, a brisa na beira do mar ou o rebojo.
Mas existe um preferido, o mais aguardado. É aquele filho que vive fazendo molecagens, desarrumando tudo, derrubando vassouras, desarranjando segredos. Faz rir e chorar. Chorar de rir.
O Vento Sul.
Quem mais poderia ser?
— Esse Sul tá de lascar.
— Ih! Tá armando tempo. Vem Suli com chuva!
— Tá, vamos tarrafear, deixa só esse Sul passar.
Ele chega, vira, entra, varre, limpa, derruba, esfria, muda o rumo das coisas.
Quando se anuncia, mar e lagoas, peixes e passarinhos, gente, plantas e bichos — tudo prende a respiração.
Foge com os guarda-sóis. Esculhamba as barracas. Atazana a vida dos caminhantes. Alevanta saias. Atiça pecados. Assanha pensamentos. É o rebuliço em desfile.
Na Ilha, a gente aprende cedo que vento não se discute. Quando vira pro sul, ou se procura abrigo ou se aprende a navegar de outro jeito.
Quando se vai, deixa limpas as águas do mar e leves os corações.
Até o dia em que alguém olha para o céu e anuncia.
— Vai entrar vento Suli.


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