A janela se abriu para segunda-feira

Trude caminha como quem levita.

Saltita pela praça.

Orgulho incontido. Olha para os que passam. Olha para todos. Olha para cada um. Diretamente nos olhos. Sente-se imponente. Leve como quem dança apaixonada. A música é só dela, os pés mal tocam o chão. No céu, fogos de artifício brilham bilhões de estrelas, só para ela.

Finalmente, ela tem um documento. Poderá mostrar para quem quiser ver: ela é Maria Gertrudes da Silva. Olhou o papel como quem se vê pela primeira vez. Vive o dia mais importante da vida, ela mesma assinou o documento com a própria letra, sem precisar da ajuda de ninguém.

 

Um dia, que ela nunca mais vai esquecer, umas moças da prefeitura apareceram no beco. Queriam saber quantas crianças moravam ali e quantas estavam na escola.

— Meu sonho é colocar minhas crianças na escola, mas não posso.

— Por que não pode? A senhora é obrigada a colocar seus filhos na escola, é lei.

— Tudo o que eu quero é salvar meus meninos desse mundo de não saber ler, não existir. Mas, como?

— E por que não coloca?

— Como, minha filha? Se o dinheiro das faxinas mal dá pra não morrerem de fome? Mandar pra escola? Cadernos, canetas, roupas, sapatos, ônibus? Como?

As moças, então, disseram que ela teria direito a uma ajuda se as crianças estivessem na escola.

— Ajuda? Minha filha, ninguém nunca me ajudou. — Trude respondeu com indignação, mas as palavras saíram com um tom suave.

— Tem, sim. A senhora tem direito a uma ajuda.

— Direito? E onde é que tá esse direito que eu nunca soube?

— A senhora precisa se cadastrar, é muito fácil. Nós podemos ajudar.

— Vocês querem entrar e tomar um cafezinho? Tenho um bolinho que eu mesma fiz.

 

Para se cadastrar era simples, bastava ter uma conta na Caixa.

Trude viu o mundo de esperanças ruir.

—  Simples? Conta em banco? Sem documentos? Sem saber ler?

 

Aos 38 anos de idade, depois de uma vida inteira de trabalho duro, Trude havia descoberto que não existia. Não tinha nenhum documento — nem registro de nascimento. Era só Trude, mais nada. Trude de carga.

O pai não registrou porque o cartório era longe e o registro era caro.

— Mulher não precisa dessas frescuras de documento. Quando casar, o marido resolve. — Era assim que ele se explicava.

Sem registro, Trude nunca foi à escola.

Não existia.

Mas, tinha história.

Uma história sem direito a sonhos. Quatro filhos pequenos, de um pai que sumiu sem deixar rastros. Sustentava os filhos com pequenas faxinas e trabalhinhos aqui ou ali.

Morava num casebre.

Um beco sem saída.

Como é que alguém que não existe pode ter conta em banco?

As moças adoraram o bolo que Trude serviu.

— Fui eu mesma que fiz. Quando consigo uma farinha e um leite, eu mesma faço, aprendi com minha avó quando era menina.

— A senhora já pensou em vender esses bolos?

Trude riu.

— Vender como, minha filha? Se nem existir eu existo.

 

Ao conhecerem a história de Trude, as assistentes sociais traçaram um plano.

— Existe um programa do governo para alfabetização de adultos. Nós vamos ajudar a senhora a se inscrever.

 

Para se inscrever no curso, precisava de documentos.

Para ter documentos, pediram endereço.

 

Trude já conhecia esse roteiro. A esperança aparecia, bulia com ela e depois sumia numa nuvem. Tudo voltava ao beco sem saída.

— Calma. Nós vamos encontrar um jeito.

Abriu-se uma janela. Trude segurou nas mãos das funcionárias e pulou para dentro.

Em pouco tempo, já conseguia ler e entender o que estava lendo. Logo depois, a maior felicidade: já conseguia assinar o próprio nome.

Durante a alfabetização, ficou sabendo que podia fazer um curso de doceira.

Depois de aprender a ler, faltava ter endereço, senão, ela continuaria não existindo.

Juntou os vizinhos. Precisavam dar um nome àquele beco para que ele pudesse virar endereço. Depois de muitas sugestões, alguém falou em Travessa do Futuro. Trude gostou. Futuro era uma palavra que acabara de aprender a escrever.

 

Finalmente, chegou o sonhado dia do registro, dela e dos filhos.

Quando o funcionário do cartório entregou o documento para Trude assinar, naquele exato momento, o papel garantiu que Maria Gertrudes da Silva existia.

Fogos de artifício preencheram a sala. O cartorário nunca viu brilho tão intenso nos olhos de alguém.

Depois de assinar, Trude pegou o documento. Acarinhou. Beijou. Chegou a temer que o coração explodisse.

 

Hoje, Trude está na praça da Prefeitura.

Com a Carteira de Identidade que acabou de receber.

O mundo agora sabe que Maria Gertrudes da Silva existe.

As crianças vão para a escola na segunda-feira.

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