Como nasce um vento de rebojo

A história do livro.

Ventos de Rebojo começou bem antes de ter esse nome.

A ideia inicial era dar continuidade à parceria entre Delman Ferreira e Paulo Sá Brito, iniciada com Sai da frente, estafermo!.

O ponto de partida seria Paralelas (sextadecontos.com/2026/01/29/paralelas), um conto sobre duas meninas de origens sociais diferentes. Transformado em romance, ganharia novos personagens — pais, amigos, vizinhos, namorados — e novos conflitos.

A questão central parecia clara: até que ponto o território onde nascemos pode determinar nosso destino?

Outra parceria definida desde o primeiro momento foi com a Editora Cruz e Sousa, voltada para a temática e para autores negros — um projeto da maior importância para o resgate da história, da realidade e do pensamento da população negra de Santa Catarina.

Mas o livro começou a escapar do projeto original.

O primeiro a exigir espaço foi Margarido, criado como pai de Magê, a menina pobre. Ao situá-lo no Morro do Céu, em Florianópolis, surgiu a oportunidade de contar algumas histórias do mundo do morro.

Margarido é filho de Catarina, lavadeira até idade avançada. Criada inicialmente para compor a história familiar de Margarido, tornou-se uma personagem fundamental.

Catarina colocou as mãos na cintura e nos questionou com voz firme:

— Vocês não vão falar de mim, de tudo o que passei para criar essa neta?

Catarina nos levou até o Rio da Bulha e nos guiou a conhecer uma história da cidade pouco presente na narrativa oficial: a expulsão das populações pobres, principalmente negras e descendentes de escravizados, das áreas centrais.

A História dos que foram relegados às margens.

Do outro lado estava a menina rica. Se queríamos compreender a pobreza, por que não investigar também a riqueza? De onde vinha a posição social daquela família? Que histórias existiam por trás dela?

Nico, inicialmente, seria apenas o pai da menina rica. Mas começou a crescer. Tornou-se complexo, contraditório e acabou assumindo protagonismo. Maria Tereza, inicialmente uma das personagens centrais, foi perdendo espaço.

Com Nico surgiu outra pergunta: como um menino que teve infância maravilhosa, quase um sonho para qualquer criança, transformou-se naquele adulto?

Sua trajetória permitiu mostrar a Ditadura também como ambiente capaz de deformar valores. Nico aprende a conviver com poder, favorecimentos e atalhos. Faz concessões. Faz escolhas. O contexto ajuda a explicá-lo, mas não o absolve.

Magê oferece uma pergunta quase inversa: como uma menina do Morro do Céu, filha de sambista e neta de lavadeira, conseguiu chegar à Sorbonne?

Novamente, Catarina está presente. Mas também está Maya, mãe que Magê não conheceu. Uma mulher que detestava drogas, mas, depois de uma morte trágica, foi estigmatizada justamente como drogada. O preconceito sobreviveu a Maya e atingiu a filha, ajudando a forjar em Magê uma personalidade forte, defensiva e, muitas vezes, solitária.

As frustrações e decepções com os homens de sua idade também ajudam a compreender o envolvimento de Magê com Nico.

Mas não temos uma heroína perfeita. Magê também é contraditória. Também faz escolhas e, em determinados momentos, submete a ética à oportunidade. Talvez, sem algumas dessas escolhas, jamais tivesse chegado à Sorbonne.

O romance não é maniqueísta. Não divide as pessoas entre boas e más. Prefere perguntar o que cada uma faz com as circunstâncias que encontra.

Em março de 2025, a própria criação do livro sofreu um rebojo. Paulo foi diagnosticado com câncer em região delicada do corpo e precisou se afastar da escrita. Mesmo enfrentando a doença, continuou participando, principalmente com pesquisas, troca de ideias e leitura crítica do material produzido.

O romance continuou crescendo.

Ao investigar as origens das famílias, surgiu a oportunidade de abordar a imigração europeia e o tratamento profundamente desigual dispensado pelo Estado a europeus e negros brasileiros. Enquanto imigrantes brancos foram incorporados a projetos de ocupação e desenvolvimento, negros libertos e seus descendentes enfrentaram abandono, perseguição policial, restrições e exclusões no acesso ao trabalho, à terra e, posteriormente, aos espaços valorizados das cidades.

A geografia do romance também se ampliou. A narrativa atravessou o oceano, chegou a Görlitz, na Alemanha, passou por São Bento do Sul e Ribeirão Preto, alcançou Taguatinga e Brasília e, mais tarde, Paris. Os deslocamentos dos personagens passaram a contar, eles próprios, parte da história.

Vieram também as migrações internas, a construção de Brasília, a Ditadura e a Novembrada.

Nesta última, interessava recuperar uma dimensão frequentemente reduzida nas narrativas tornadas oficiais. Os estudantes tiveram papel destacado, mas a indignação popular foi determinante. Era importante mostrar como o povo foi o grande protagonista da Novembrada. E como um acontecimento coletivo produziu consequências individuais — a exemplo do que ocorreu com Margarido.

Assim, a História entrou no romance não como cenário, mas como força capaz de interferir na vida das pessoas.

Faltava encontrar uma voz para contar tudo isso.

E ela veio dos ventos.

Em Florianópolis, os ventos fazem parte das conversas, das tradições e do cotidiano. No romance, começaram a adquirir outra dimensão: tornaram-se uma presença lírica, invisível, mas capaz de alterar planos, promover encontros e mudar destinos.

Foi assim que surgiu o Arauto dos Ventos, condutor da história. Uma espécie de guia para orientar o leitor através do tempo e da geografia.

O livro ainda não tinha título. Depois do encontro de Magê e Nico no motel Meiembipe, surgiu a ideia de chamá-lo Meiembipe. Uma provocação para quem conhece Florianópolis e alguns de seus segredos. Mas o nome sugeriria uma história de amor, e já estava claro que o romance era muito mais do que isso.

Depois veio Arauto dos Ventos.

Até que uma fala do próprio Arauto ofereceu o título definitivo:

Ventos de Rebojo.

O rebojo também ajudou a definir a arquitetura do romance. A narrativa não obedeceria a uma ordem cronológica. Personagens, épocas e lugares apareceriam e desapareceriam como folhas numa revoada.

Porque a própria vida não respeita planos ou calendários organizados.

No fundo, Ventos de Rebojo acabou reunindo três forças que agem sobre cada personagem: o território onde nasce, o tempo histórico em que vive e os ventos imprevisíveis que atravessam seu caminho.

O endereço pode indicar de onde alguém parte.

A História pode abrir ou fechar caminhos.

Mas sempre pode surgir um rebojo.

E mudar tudo de direção.

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