Há histórias reais que precisam de retoques da ficção para se sustentarem na Literatura. Outras são tão fantásticas que chegam a parecer pura ficção.
O que vou contar é pura vida real, mas vocês vão ter certeza de que só pode ser ficção.
Aconteceu comigo num sábado em Brasília.
Até hoje, gosto de cortar cabelo em barbeiro das antigas, com aquelas cadeiras saídas de um filme de Mazzaropi. Alguém ainda sabe quem foi Mazzaropi?
Por isso eu gostava de cortar na barbearia de Seu Anacleto. A cadeira, a navalha, os espelhos com marcas, as revistas, as piadas da Playboy — tudo de um tempo indefinido. Até o talco no pescoço depois do cabelo cortado.
A história já inicia atravessada.
Naquela manhã, não saí de casa para cortar o cabelo.
Eu morava na 215 Sul e, aos sábados, gostava de tomar café na Belini, no alto da 113 Sul. — Esses endereços parecem bem esquisitos, e são. Só entende quem mora, ou já morou, em Brasília.
Fui até lá e, parecia meu dia de sorte, encontrei uma vaga para estacionar bem em frente à Belini.
Desci. Tomei o café e li o jornal vagarosamente. Inclusive, pedi para colocar uma fatia de queijo no pão na chapa. Enfim, paguei e saí.
Cheguei na porta e…frio na barriga.
— Cadê meu carro? Putaqueopariu roubaram meu carro!
Voltei para dentro, ninguém tinha visto nada.
— Será que o senhor não deixou em outro lugar? Quem sabe na quadra interna?
— Não, tenho certeza que deixei bem aqui.
Nisso, olho para baixo e vejo outra confusão.
— Será que roubaram outro carro — pensei. — Deve ser uma quadrilha especializada.
Fui até lá. Vejo Seu Anacleto, meu barbeiro, atônito, sem entender nada.
Chego perto e…
…vocês não vão acreditar…
Meu carro, um Polo, estava enfiado na porta do Gol de Seu Anacleto.
Nem eu acreditei.
Pois é, foi bem isso…
…esqueci de puxar o freio de mão.
O carro desceu de ré e entrou com bola e tudo no Gol de Seu Anacleto.
Anacleto não sabia se ria, comemorava ou me xingava quando eu disse que o Polo era meu.
Liguei para o Seguro.
A atendente me orientou a fazer um B.O. e disse que seria melhor levar comigo o proprietário do carro atingido.
Fomos no meu carro para a Primeira DP.
Uma oficial nos atendeu.
Fizemos o relato e ela nos pediu os documentos.
Passei tudo, CNH, carteira de identidade e documentos do carro.
Naquele tempo, ainda se usava documentos em papel.
Ela digitou alguma coisa no computador, conferiu e registrou.
Passo seguinte, pediu os documentos de Seu Anacleto.
Mesmo procedimento, olhou um por um, digitou algo no computador e… ficou séria.
Levantou-se. Mandou que aguardássemos ali mesmo e foi lá pra trás.
Uma meia hora depois, voltou e, imediatamente, firme, com toda a autoridade que policiais são treinados para impor numa hora dessas…
…deu voz de prisão para Seu Anacleto.
Passado o tumulto, Anacleto tentou se explicar para a delegada.
O mandado vinha do Piauí e tinha mais de quatro anos. Uma velha pendência de pensão alimentícia, dessas histórias familiares que nenhum boletim de ocorrência consegue explicar direito.
Anacleto teve um caso com uma moça. Ela engravidou. Ele jura que deu todo o apoio. Quando o menino fez 8 anos, foi morar com ele e a família. Naquele sábado, já estava com 15. A esposa de Anacleto era apaixonada pelo rapaz.
Ainda assim, a mãe natural entrou na justiça pedindo pensão. Havia recurso, disputa de guarda, advogado, decisão judicial.
A história parecia cada vez mais enrolada. Mas Anacleto é daqueles seres humanos que nos fazem acreditar mesmo quando a história parece não ter pé nem cabeça. A delegada ouviu com paciência. No fim, acreditou nele.
Mas acreditar era uma coisa. Soltar era outra. Somente um juiz tinha poderes para soltar ou manter a ordem de prisão.
Sábado de manhã, onde encontrar um juiz para decidir qualquer coisa?
Como mais uma ironia rocambolesca dessa história, a filha de Anacleto cursava Direito e estava fazendo estágio em um tribunal. Conhecia o juiz.
Nessa altura, já era hora do almoço. Assumi a defesa de Anacleto.
Vamos atrás da filha. Ligamos para o celular. Desligado.
Anacleto não fazia ideia do paradeiro da filha. Lembrou que a mulher conhecia uma das amigas.
Conseguimos o número do telefone da tal amiga (naquele tempo não havia Zap). Felizmente, estavam juntas, a amiga e a filha de Anacleto. Só que estavam em uma chácara, uns 40 km do Plano Pìloto.
Toco pra lá, buscar a filha.
Contei o ocorrido e a urgência de encontrar um juiz.
A filha, nervosa, tímida, ficou com medo de incomodar em pleno sábado.
Ligamos para uma secretária do juiz — sondar onde ele estaria.
Para meu desespero o tal juiz poderia estar (ela não tinha certeza) em uma chácara — em Luziânia, cidade satélite no lado oposto de Brasília.
Toca para a chácara do juiz. Sem saber se ele nos atenderia. Poderia estar com amigos, ter bebido, ou sabe-se lá o quê.
Lembrem-se: não havia nem Zap, nem GPS. Orientação era na boca.
— Vizinho, o senhor sabe de algum juiz que tem chácara por aqui?
— Ih! O que mais tem aqui é chácara de juiz, eles compraram uma fazenda e dividiram em chácaras para cada um.
— E agora, como é que vamos achar esse tal?
— Só tem um jeito, ir de uma em uma até encontrar.
Lá fomos nós, de porta em porta. Estradas de chão. Mato. Areia fina, escorregadia. Cada chácara mais distante do que a outra.
Eu já nem sabia se conseguiria voltar.
Enfim, já escurecia quando encontramos o juiz salvador.
Copo de uísque na mão.
Ouviu e deu muita risada da história.
— Esse Anacleto tem cada uma!
Fiz cara de cumplicidade e rimos juntos.
Alegre. Brincalhão. Nos convidou para entrar e jantar. Elogiou Anacleto, “o melhor barbeiro do Plano Piloto”.
Por fim, foi no computador e emitiu um mandado de soltura. Disse que, na segunda-feira, falaria com o outro juiz para encerrarem o caso.
Quando saímos da Primeira DP, já passava das dez da noite. Anacleto estava livre, o Gol amassado, meu Polo também, e eu havia atravessado Brasília duas vezes, percorrido estradas de chão e chácaras, conhecido delegada, esposa, filha e juiz, e me metido num processo de pensão alimentícia que vinha do Piauí e parecia não ter fim.
Tudo porque saí de casa para tomar um café.


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