O ritual das laranjas

“The long and winding road” (Beatles) me remete a tardes de sábado no inverno.

Minha avó, Maria Clara, descascando laranjas. Minha mãe, Diná, fazendo feijão.

Não faço a menor ideia da relação entre uma coisa e outra.

Maria Clara, sentada num banco baixo. Com um saco de laranjas e duas bacias. Laranja-açúcar — uma laranja pequena, feia, com a casca meio carunchada. Puro açúcar, a doçura que justifica o nome.

Descascava cuidadosamente cada laranja — trabalho de artesã. A casca saía inteirinha, sem partir. Depois, pacientemente, tirava toda a pele branca. As cascas iam parar numa das bacias. Ficavam apenas os gomos amarelinhos, que ela separava um a um e colocava na outra bacia.

Enquanto minha avó descascava as laranjas, minha mãe preparava um maravilhoso feijão com linguiça, costelinha de porco, batata-doce, abóbora… e caldo bem grosso.

Primeiro, cozinhava o feijão apenas na água, sal e temperos. Antes de colocar carnes e companhia na panela, havia uma momento mágico. Ela coava, pegava canecas e enchia com baguinhos de feijão.

Era nossa alegria. Cinco crianças. Largávamos o que quer que estivéssemos fazendo para comer baguinhos de feijão na caneca.

Laranjas descascadas, Maria Clara enxugava as mãos na toalha que sempre trazia sobre os joelhos. Pegava os gomos, um a um, cortava por trás e abria. Colocava em cada prato, como se fossem flores.

Enquanto uma decorava os pratos, a outra fazia pirão com o caldo do feijão bem quente.

No centro, o pirão de feijão. Nas bordas, as pétalas feitas pelos gomos de laranja.

Tardes de sábado de inverno. A gente se deliciava comendo pirão de feijão com flores de gomos de laranja. Rindo à toa.

Um jardim de margaridas.

São longos e tortuosos os caminhos da memória.

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