— Quinzinho, fecha essa janela, apaga a luz e vai dormir. Já te falei pra me deixar ver minha novela, se eu tiver que subir aí tu vais te arrepender!
— Mas, Mãe, se eu fechar a janela, a Manoela não vai conseguir entrar e expulsar os monstros que ficam debaixo da cama.
Maria Hermínia havia acabado de colocar Quinzinho na cama. Finalmente, conseguiu tirar um tempinho para ela mesma. Depois de um dia exaustivo, o horário da novela era sagrado. Conseguia aturar de tudo o dia inteiro esperando aquele momento de devaneio, quando relaxava e se permitia sair da realidade.
— Deixa de besteira, menino. Tua irmã Manoela não vai nunca entrar por essa janela. Ela está muito longe daqui.
— Mãe, ela vem aqui toda noite, senta na minha cama e fica comigo até os monstros saírem.
— Já disse pra acabar com essas bobagens. Apaga a luz e vai dormir.
— Mãe, ela já chegou. Disse pra senhora ficar tranquila que ela cuida de mim.
Maria Hermínia tremeu dos pés à cabeça. Acordou a própria mãe que dormitava na frente da TV.
— A senhora fica falando o que não deve, agora o menino está vendo coisas.
Subiram ao quarto de Quinzinho. Encontraram apenas o menino enroscado, aconchegado na cama. Não havia mais ninguém.
— Mãe, a Manoela pediu pra deixar a janela aberta — falou com voz serena.
— Que Manoela, menino? Não tem ninguém aqui.
— Mãe, vó, ela tá dizendo que ama vocês e tem muita saudade.
— Para com isso, menino, para de inventar coisa, já te disse que não gosto de mentiras, não tem Manoela nenhuma — disse a mãe de forma ríspida.
A avó percebeu que o menino parecia falar sério. Foi até o neto, fez um carinho na cabeça, e perguntou:
— Meu querido, como ela está?
— Ela tá toda de branco, Vó.
— Com vestido branco? E o que mais?
— Tem flores na cabeça.
— Mais alguma coisa?
— Ela tá mostrando uma medalha que tem no peito.
A avó deixou escapar um soluço emocionado, voltou-se para a filha e, entre lágrimas, disse:
— É a Manoela. Ele tá vendo a Manoela.
Maria Hermínia olhou para a mãe.
— Foi assim que ela foi enterrada. Vestida de anjinho, com flores na cabeça e a medalha da Virgem da Conceição.
Quinzinho nascera dois anos depois.
— Mãe, a senhora também vai entrar nessa? Deixa a Manoela em paz — apesar do tom de censura, a voz de Maria Hermínia soou suave.
— Mãe, a Manoela disse que a senhora pode ficar tranquila.
Quinzinho segurou a mão da mãe.
— A Manoela tá dizendo que a senhora deve parar de ser triste. Ela só vai ficar em paz quando a senhora estiver feliz.
Maria Hermínia foi até a janela, prendeu a cortina, virou-se para Quinzinho, olhou a mãe e desceu as escadas.
A janela ficou aberta.


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