Às sete da noite, começavam a chegar ao ginásio. Naquela semana, jogariam contra o pessoal de outro departamento. Alguns se conheciam dos corredores, outros nem de vista.
Enquanto Nicanor amarrava o tênis, um colega se aproximou e, com o queixo, indicou um sujeito de corpo entroncado, braços musculosos e pescoço grosso. Parecia um lutador de jiu-jítsu.
— Nica, cuidado com aquele fortinho.
— Por quê?
— Joga muito. Parece lerdo, mas tem habilidade e é rápido pra caramba.
Nicanor olhou para o adversário.
— Já tinham me falado de um tal de Brando. É esse?
— Hildebrando. Mas de brando não tem nada.
— Então deixa comigo.
No primeiro lance entre os dois, Brando protegeu a bola com o corpo e girou. Nicanor chegou atrasado, deu um trava-pé e o derrubou.
— Tá cansado, fortinho?
Brando levantou-se rindo.
— Já te mostro quem vai dançar.
E mostrou.
Poucos minutos depois, Brando recebeu a bola na lateral, quase em cima da linha. Ameaçou sair pela direita, pisou na bola, puxou para a esquerda, deu uma letra e escapou pela direita. Deixou Nicanor tentando entender o que aconteceu. Chutou no canto. Indefensável.
— Dançou!
O jogo seguiu pegado, com provocações de lado a lado, e terminou, como sempre, nas cervejas, tira-gostos e a repetição das jogadas, agora muito mais bonitas do que tinham sido em quadra. Cada um contando mais vantagens que o outro.
— Aquele drible foi sorte — disse Nicanor.
— Sorte? Tu ainda tá procurando a bola.
— Quarta que vem a gente conversa.
Brando ergueu a garrafa.
— Se prepara.
Pouco depois das dez, começaram as despedidas. Nicanor estava sem carro naquele dia e caminhou até o ponto de ônibus.
Esperava havia poucos minutos quando um carro parou à sua frente. O vidro baixou.
— Nicanor!
Era Brando.
— Vai pra que lado?
Nicanor disse.
— Entra aí. É meu caminho.
A conversa retomou de onde havia parado. Brando insistia no drible. Nicanor jurava que tinha escorregado. Riram. Falaram do jogo, dos colegas, do trabalho.
Já estavam longe do ginásio quando Brando colocou a mão sobre a coxa de Nicanor.
Nicanor olhou para baixo. Imaginou que fosse um movimento involuntário na troca de marcha.
A mão não saiu.
Os dedos apertaram sua perna e começaram a acariciá-la.
Nicanor segurou a mão de Brando e a afastou.
— Amigo, não sei o que estás pensando, mas essa não é a minha praia.
Brando recolheu a mão.
— Desculpa.
Nicanor virou o rosto para a janela.
— Desculpa mesmo.
O silêncio tomou o carro.
Brando mantinha os olhos na rua. Apertava o volante com as duas mãos.
— Fiz merda.
Nicanor continuou olhando pela janela.
— Esquece.
— Não dá pra esquecer.
Rodaram mais alguns metros.
— Posso te explicar?
— Não precisa.
— Precisa pra mim.
Nicanor virou-se. Brando parecia outro.
O sujeito que minutos antes ria do drible, provocava, bebia cerveja com os outros, agora dirigia com os olhos grudados na rua.
— Eu nunca fiz isso antes.
Nicanor ia encerrar o assunto. Então percebeu que as mãos de Brando tremiam sobre o volante.
Afrouxou o cinto de segurança. Olhou para ele outra vez.
— Então por que fez comigo?
Brando demorou a responder.
— Não sei.
— Sabe, sim.
O carro parou num sinal.
— Sei.
O sinal abriu. Brando não percebeu. O carro de trás buzinou.
Brando arrancou.
— Me deixa te contar uma coisa.
Nicanor ficou alguns segundos calado.
— Aqui, não.
Brando olhou para ele.
— Se quer conversar, a gente para em algum lugar.
Adiante, as luzes de uma perua de lanches iluminavam um recuo à margem da avenida.
— Ali serve?
— Serve.
Brando estacionou.
Sentaram-se numa mesa de plástico, um pouco afastada da perua. No tampo, uma marca de cerveja já quase apagada. Pediram mais duas.
Durante algum tempo, Brando ficou girando a latinha entre as mãos.
— Meu pai era meu herói.
Nicanor esperou.
— Jogava bola pra caralho.
Sorriu pela primeira vez desde que haviam saído do carro.
— Era o melhor do bairro. E pedreiro de mão cheia. Quando tinha jogo fora, a gente ia na carroceria de caminhão. Eu ia junto. Não perdia um.
Brando tomou um gole.
— Queria ser igual a ele. Em tudo.
Contou das bolas, dos carrinhos, das armas de brinquedo que ganhava. O pai se orgulhava quando o via correndo atrás de uma bola, brigando com os outros moleques, chegando em casa com o joelho esfolado.
— Só que eu gostava de outras coisas também.
Nicanor permaneceu calado.
— Minha irmã era mais velha. Quando não tinha ninguém em casa, eu entrava no quarto dela. Às vezes vestia uma roupa, me olhava no espelho. Depois guardava tudo exatamente no mesmo lugar. Morria de medo que alguém descobrisse.
Baixou os olhos para a latinha.
— E adorava ficar na cozinha com minha mãe. Ela me ensinava as coisas. Arroz, feijão, bolo… Até hoje cozinho bem pra caramba.
Nicanor sorriu.
— Pelo menos alguma coisa tu faz bem.
Brando levantou os olhos.
— Além de te dar caneta.
Os dois riram.
A risada durou pouco.
— Meu pai não gostava. Se me pegava na cozinha, mandava sair. Dizia que aquilo não era lugar pra homem. Eu saía. Queria agradar a ele.
Fez uma pausa.
— Acho que passei a infância inteira tentando ser o menino que ele queria que eu fosse.
Na adolescência, vieram as turmas. Brando gostava de ficar com as meninas. Conversava, ouvia as histórias, sabia quem estava a fim de quem, aprendia as danças.
— Os caras achavam que eu era esperto. Que ficava no meio delas pra pegar mulher.
— E tu deixava acharem.
— Eu ajudava.
Começaram a inventar histórias sobre ele. Brando não desmentia. Às vezes acrescentava alguma coisa. Logo ganhou fama de comedor.
— Meu pai adorava.
Nicanor mexeu na latinha.
— E tu?
Brando demorou.
— Eu adorava que ele adorasse.
Um caminhão passou pela avenida. Por alguns segundos, o barulho ocupou o espaço entre os dois.
— Depois vieram as namoradas. Noivei. Casei.
— Gostava dela?
Brando levantou os olhos.
— Muito.
A resposta surpreendeu Nicanor.
— Não foi mentira, se é isso que tu tá pensando. Eu amei minha mulher. Ainda gosto dela. Só não deu certo.
— Por causa disso?
— Não. Pelas mesmas merdas que acabam com um monte de casamento. A gente foi se afastando. Brigando. Parando de conversar. Até que um dia não tinha mais casamento.
Brando olhou para o movimento da avenida.
— Tivemos dois filhos.
Sorriu.
— Dois guris.
O sorriso desapareceu devagar.
— Passei metade da vida com medo de decepcionar meu pai.
Tomou um gole.
— Agora passo a outra metade com medo de decepcionar meus filhos.
Nicanor deixou o silêncio ficar entre os dois.
— E os teus filhos sabem?
Brando balançou a cabeça.
— Saber o quê?
A pergunta pegou Nicanor de surpresa.
— Disso.
— Nem eu sei o que é isso.
Nicanor olhou para a avenida. Também não sabia o que fazer com aquilo.
Brando apoiou os braços na mesa.
— Durante muito tempo, eu nem pensava nisso. Depois comecei a reparar nos homens. Dizia pra mim mesmo que não queria dizer nada. O cara tinha um corpo bonito, se vestia bem… Qual o problema em reparar?
Sorriu sem graça.
— A gente é bom em mentir pra gente mesmo.
— Nunca aconteceu nada?
— Nunca.
— Nem depois que tu te separou?
— Principalmente depois que me separei.
Nicanor franziu a testa.
— Não entendi.
— Casado eu tinha uma desculpa. Não podia fazer nada porque era casado. Depois que me separei, acabou a desculpa.
— Aí dependia de ti.
— Aí dependia de mim.
Brando passou a mão pelo rosto.
— Pensei um monte de vezes. Entrava num aplicativo, saía. Pensava em ir a algum lugar, desistia. E se alguém me visse? Se chegasse nos meus filhos?
— E hoje tu resolveu passar a mão na minha perna.
Brando baixou os olhos.
— Fiz merda.
— Fez.
— Eu sei.
— Mas por quê?
Brando ergueu os olhos.
— Tu quer mesmo saber?
— Foi tu que pediu pra conversar.
Brando respirou fundo.
— Na quadra, quando tu me derrubou… Depois veio aquela provocação. O jeito que tu ria. Na mesa também. Não sei explicar.
Brando procurou as palavras.
— Tu é muito homem.
Nicanor arqueou as sobrancelhas.
— Obrigado, eu acho.
Brando quase riu.
— Não é isso. Tu é… homem, tem todo o jeito de homem. Mas, ao mesmo tempo, é gentil, tem um jeito meio infantil, delicado.
— Delicado?
— Sabia que tu ia gostar.
Nicanor riu.
Brando também.
— Não sei a palavra, porra. Foi isso que eu senti.
A expressão de Brando tornou a ficar séria.
— E pela primeira vez eu estava sozinho com um homem que eu desejava. Depois de umas cervejas. Pensei que talvez…
— Que eu também quisesse.
— É.
— E resolveu descobrir passando a mão na minha perna.
— Pois é, não foi minha melhor ideia.
— Definitivamente.
Brando assentiu.
— Desculpa.
Dessa vez, Nicanor respondeu:
— Tá desculpado. Mas não tenta de novo.
— Pode deixar.
— Porque da próxima vez o trava-pé vai ser fora da quadra.
Brando soltou uma gargalhada.
Nicanor também.
Quando o riso passou, Brando ficou sério outra vez.
— Ninguém sabe.
— Da mão na minha perna?
— De mim.
Nicanor olhou para ele.
— Agora tu sabe.
Ficaram mais algum tempo sentados. Não havia muito mais a dizer.
Brando deixou Nicanor em casa.
— Valeu pela carona.
— Eu que agradeço.
Nicanor fechou a porta. Brando arrancou.
Na quarta-feira seguinte, Brando chegou mais tarde ao ginásio.
Cumprimentou os colegas, deixou a mochila num banco e começou a trocar de roupa. Procurou Nicanor sem parecer que procurava.
Ele estava do outro lado da quadra.
Os olhos dos dois se encontraram.
Nicanor levantou a mão.
— Beleza?
— Beleza.
Brando terminou de amarrar o tênis.
Na hora de dividir os times, Nicanor foi um dos dois sorteados para montar as equipes. Cada um chamaria um jogador por vez. Nicanor começava.
Os jogadores se espalharam diante dele.
Correu os olhos pelo grupo.
Brando esperou um pouco afastado.
Nicanor apontou para ele.
— Este é meu artilheiro.


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