Modernidade na curva do rio

João da Silva, o Juca Mão de Gato, nunca imaginou que um dia fosse ficar sem emprego no Curva do Rio Futebol Clube. Sem emprego e sem casa.

A notícia veio numa terça-feira de manhã, quando ele ainda estava no quintal, tratando das galinhas.

O sobrinho do novo presidente do clube apareceu na casa de Juca sem avisar. Usava camisa social, calça vincada e sapatos que não combinavam com o barro do terreno.

— O senhor é Seu João da Silva?

— Sou, mas todo mundo chama Juca Mão de Gato.

O rapaz despiu-se um pouco da cerimônia e ensaiou um sorriso.

— Mão de gato, posso chamá-lo assim?

— Como o senhor quiser.

Sorriso guardado, o rapaz continuou.

— Então, Seu Mão de Gato, a nova gestão está promovendo uma reestruturação operacional — anunciou, entregando-lhe um envelope.

Mão de Gato limpou as mãos na calça antes de abrir o documento. Leu uma vez. Depois outra.

A Terceirizada assumiria os serviços de manutenção, limpeza e conservação das instalações. Seu contrato estava encerrado. Quanto à casa, o terreno precisava ser desocupado.

— Minha casa? Toda minha vida está aqui.

O rapaz ajeitou a pasta debaixo do braço.

— Compreendo sua preocupação, mas o clube precisa se modernizar. Esta área será transformada num hub operacional da nova administração.

Mão de Gato olhou para a casinha, para a horta e para as galinhas ciscando junto à cerca.

— Rubi de quê?

— Hub operacional. Um espaço integrado para centralizar processos, otimizar recursos e garantir maior eficiência administrativa.

Juca Mão de Gato coçou a cabeça. Uma galinha bicou-lhe o pé. Ele a pegou no colo.

— Mas aqui já era tudo integrado. Eu limpava o vestiário, consertava o alambrado, cuidava do campo, tratava dos jogadores e ainda dava comida pras galinhas.

O rapaz esboçou um sorriso profissional.

— Exatamente. A nova gestão vai racionalizar essas atividades.

— E as galinhas?

O rapaz consultou a pasta, como se a resposta pudesse estar numa das folhas.

— As galinhas não fazem parte do escopo da operação.

Mão de Gato não era homem de muitas letras, mas entendia de futebol. Seu Luiz do Curva, presidente havia três mandatos, cuidava do clube como cuidava do Armazém Curva do Rio: conhecia os funcionários pelo nome, pagava os salários em dia e não deixava faltar o necessário.

Com Seu Luiz no comando, o Curva subira na tabela do campeonato local, estava na quarta divisão e já sonhava chegar à terceira na próxima temporada.

Mas, na campanha para a eleição da nova diretoria, Messias Bajulino, da oposição, prometera uma gestão moderna. Mão de Gato acreditou. Afinal, Messias garantira que sua vida também iria melhorar.

A eleição fora há pouco mais de um mês. Messias prometera mudanças, e elas não demoraram. Primeiro, anunciou a contratação da Terceirizada. Depois, comunicou a demissão dos antigos funcionários.

Mão de Gato ainda tentou argumentar, lembrando os anos de serviço e a casa onde morava. Ele era uma lenda do Curva desde aquele campeonato do bairro em que defendera o pênalti na final, garantindo o título. Durante anos, ninguém no clube fora tão celebrado quanto ele.

Ouviu que eram decisões da nova gestão e que o clube precisava pensar no futuro.

Seguiu para o clube. Ao atravessar o campo, estranhou a movimentação de máquinas. Uma retroescavadeira arrancava a trave de sua glória. Junto com a grama, apagava a história.

Mão de Gato parou. Acariciou a galinha sem perceber o que fazia. Olhou como quem olha através. Além da curva, o nada.

Procurou o novo presidente. Messias acompanhava os trabalhos.

— Que é isso, presidente? Vão acabar com o campo?

— Calma, Mão. O clube precisa se adaptar aos novos tempos. A Terceirizada conseguiu um acordo com o líder da terceirona. Nosso campo vai ser um CT. Ali, naquela área, vamos ganhar uma academia com aparelhos de musculação.

— CT?

— É, um Centro de Treinamento.

— Mas e depois, quando a gente chegar na terceirona, vamos ter campo?

Messias deu-lhe um tapinha no ombro.

— Um passo de cada vez, quem sabe chegamos junto com eles.

Juca alisou as penas da galinha.

— Mão, futebol é uma coisa, gestão é outra. Lembra, temos que pensar longe. Mas não te preocupa, não vou te deixar no desamparo. Quando eu me eleger vereador, vou te arrumar um lugar de assessor na Câmara.

Mão de Gato olhou para ele, sem saber o que dizer.

— Vereador?

— Claro! A presidência do Curva é um ótimo começo. Sabe como é, o povão gosta de quem manda, gosta de modernidade.

Mão de Gato olhou de esguelha. Já sentia na pele os efeitos daquela modernidade toda.

— Quando o povo me colocar lá na Câmara, vou poder fazer muito mais. Tu sabes como é: precisamos pensar no futuro.

Mão de Gato ainda tentou um sorriso cúmplice.

— Seu Messias, eu fazia de um tudo: roupeiro, gandula, até enfermeiro eu era. Quando um dos nosso se machucava, eu corria com spray anestésico pra aliviar. Mas, se era um deles, eu tinha uma misturinha de álcool com vinagre que fazia o desinfeliz gritar de dor.

Messias ouviu a história com um sorriso protocolar. Depois explicou que a modernização exigia mudanças.

— O Curva precisa pensar grande. Em breve, todos reconhecerão os benefícios da nova gestão.

Mão de Gato desistiu de argumentar.

Ainda com a galinha no colo, seguiu até o Armazém Curva do Rio, onde Seu Luiz atendia uma senhora com a atenção de sempre.

Mão de Gato pensou nas vezes em que o presidente lhe adiantara o salário. Lembrou-se das consultas médicas para a família, da casinha construída em mutirão, da escola do casal de filhos.

Seu Luiz cuidava da gente, pensou, num suspiro.

Esperou a freguesa sair.

— E então, Mão? Como vão as coisas no clube?

Mão de Gato abaixou os olhos.

— Modernas, Seu Luiz. Tão modernas que não tem mais lugar pra mim.

 

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