Gente decente não passa recibo

O rádio da sala interrompeu a programação musical para transmitir a propaganda eleitoral. A médica mandou a secretária desligar o aparelho.

— A senhora não gosta de política? — perguntou D. Maria.

— De maneira nenhuma! Detesto políticos. Eu sou uma pessoa séria. Políticos são todos corruptos. Vivem metendo a mão no dinheiro público. Depois não tem dinheiro para saúde, educação, nada! Só quem não é decente é que se mete com política.

— Em parte, a senhora está certa. No entanto, comete um erro ao generalizar. Assim como em qualquer profissão ou agrupamento social, na política há gente desonesta, mas também há gente que tenta fazer as coisas corretamente.

— A senhora me desculpe, mas é difícil acreditar que tem gente séria, só se vê falar em corrupção. Não se vê nada de bom.

— Pois é. Quem faz alguma coisa errada vira notícia. Quem trabalha direito quase nunca aparece. E, quando a gente só ouve falar dos errados, acaba achando que todos são errados, todos bandidos.

Maria sentiu-se constrangida com a insistência da médica. Preferiu calar. Os exames estavam terminando, não havia razão para alongar a conversa.

No trabalho, a médica era realmente séria e competente. Era também uma das sócias da clínica. Havia sido muito bem recomendada. D. Maria decidiu fazer a cirurgia ali mesmo.

A cirurgia foi bem-sucedida. Compenetrada, a médica passou as recomendações para os próximos dias.

— O pós-operatório é um momento quase tão importante quanto a própria cirurgia. Siga corretamente estas instruções e observe os horários dos remédios. Qualquer ocorrência, pode me chamar. Minha secretária vai entrar em contato para saber como está sua recuperação.

Depois que recebeu alta, D. Maria dirigiu-se ao setor financeiro.

Competência no trabalho. Competência para cobrar.

Consulta. Exames. Internação. Cirurgia. Anestesia. Remédios. Materiais descartáveis. Curativos…

Nada ficou de fora da conta.

Feitos os pagamentos, vieram os agradecimentos e os gentis votos de rápida recuperação. Entretanto, quando D. Maria perguntou pelos recibos, a atendente ficou meio atônita.

— Infelizmente, no momento não estamos podendo fornecer os recibos porque o bloco acabou. Já fizemos a encomenda, mas a gráfica ainda não entregou. A senhora pode ficar tranquila que logo vamos estar mandando o recibo para seu endereço.

Maria não aceitou a desculpa.

— Não precisa ser num formulário impresso. Basta um recibo com a discriminação dos valores, a identificação de quem recebeu e a assinatura da médica. Mas quero o recibo agora.

Deu-se o impasse. Ainda tentaram convencê-la a esperar uns dias. Ninguém sabia o que fazer. Chamaram a encarregada da clínica.

A encarregada ainda tentou argumentar com a história da gráfica. Diante da insistência de D. Maria, acabou admitindo:

— Veja bem, nós não trabalhamos com recibos. É uma orientação da administração. Fazemos assim com todos os pacientes. A senhora sabe, o governo cobra muitos impostos…

— Mas a senhora está me dizendo que a clínica não fornece recibos para não pagar impostos?

— Não é bem assim. É uma questão de sobrevivência. Se a gente fosse pagar tudo que o governo exige…

— Sobrevivência? E como sobreviveria a cidade se ninguém pagasse impostos? Quem manteria as ruas, a iluminação, os hospitais, a polícia? Ou a senhora acha que tudo isso aparece por milagre?

Maria, indignada, exigiu falar com a gerência da clínica.

Quem apareceu foi a própria médica que a havia atendido. Quando ela chegou, a funcionária foi logo avisando, também indignada:

— Doutora, esta senhora está exigindo recibos!

Maria olhou firme nos olhos da médica.

— Sou Maria da Silva. Vereadora. Sou dessa gente indecente que se mete com política.

A médica desviou os olhos.

E mandou fazer o recibo.

No valor correto.

 

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