Eu, pecador, me confesso

Eu, pecador, me confesso.

Não sei exatamente quando começou.

Na infância, meus heróis não tinham capas. Eram o padeiro, que me acordava com o delicioso cheiro de pão quentinho. O pescador que dominava a canoa sobre as águas. O verdureiro, com sua matraca, que de longe me enchia a boca de água. O motorista que manobrava o ônibus gigantesco.

Eu, pecador, me confesso.

Gosto de gente.

Não apenas das pessoas próximas, com quem divido afetos, lembranças e algumas divergências. Gosto também de desconhecidos. Pessoas que encontro na rua, no ônibus, nas praças. Às vezes, basta observar duas pessoas conversando animadamente para sentir uma alegria inexplicável. Nem sei do que estão falando.

Tenho um fraco por crianças. Gosto de vê-las brincando, inventando mundos, fazendo perguntas que deixam os adultos sem resposta. E pelos velhos também. Principalmente aqueles que ainda conservam a curiosidade e a disposição para aprender alguma coisa.

Uma senhora atravessava a rua com dificuldade. Um rapaz interrompeu o passo, ofereceu-lhe o braço e a acompanhou até a outra calçada. Fiquei olhando os dois se afastarem. Sorri sozinho.

Uma tarde, tomando café na padaria, assisti a um vídeo em que uma moça, surda desde o nascimento, experimentava um aparelho auditivo e ouvia pela primeira vez na vida. Chorei quase tanto quanto ela.

É constrangedor admitir, mas essas coisas me acontecem com frequência.

Também não consigo ver alguém sofrer sem sentir um aperto no peito. Uma criança chorando de fome, um homem dormindo na calçada, uma mãe desesperada diante de um hospital. Mesmo quando nada posso fazer, levo comigo um pouco daquele sofrimento.

Eu, pecador, me confesso.

Com os animais não é diferente.

Certa vez, encontrei um passarinho caído na calçada. Estava vivo, mas não conseguia voar. Recolhi com cuidado, procurei um lugar protegido e fiquei por perto, esperando que se recuperasse. Quando finalmente abriu as asas e desapareceu entre as árvores, senti uma alegria desproporcional.

Eu, pecador, me confesso.

Tenho dificuldade antiga com as armas. Não gosto delas. Nem das pequenas, nem das grandes. Não me atraem o brilho do metal, a precisão dos mecanismos ou o estrondo dos disparos. Quando percebo alguém exibindo uma arma com orgulho, não consigo compreender o motivo daquele entusiasmo. Armas me metem medo. E abrem uma tristeza que não sei explicar.

Eu, pecador, me confesso.

Emociono-me com uma facilidade que chega a ser inconveniente.

Basta ver alguém superar uma dificuldade que parecia intransponível. Um estudante pobre recebendo o diploma. Alguém que reaprende a caminhar depois de um acidente.

Lembro de uma corredora que chegou em último lugar numa competição. Estava exausta. Os outros atletas já haviam terminado a prova muito antes. Ela continuou. Nos últimos metros, mal conseguia levantar os pés. Quando cruzou a linha de chegada, ergueu os braços.

Chorei.

Eu, pecador, me confesso.

Gosto de dividir a mesa. Gosto de conversas demoradas, de risadas que contagiam os vizinhos, de gente reunida para celebrar alguma coisa. Gosto de festas populares, de crianças correndo entre as pernas dos adultos, de velhos contando histórias que todos já ouviram.

Gosto até das pequenas confusões que surgem quando muitas pessoas precisam decidir alguma coisa juntas. Nem sempre concordamos. Às vezes, discutimos, levantamos a voz, ficamos aborrecidos. Depois alguém conta uma história, outro faz uma brincadeira, e a conversa continua.

Nunca consegui imaginar uma vida em que não precisasse de ninguém.

Há quem consiga. Admiro essa autossuficiência, embora não saiba muito bem como funciona. Eu dependo de tanta gente que nem seria capaz de fazer uma lista completa.

Do agricultor que planta minha comida ao trabalhador que mantém a água chegando à minha torneira. De quem escreveu os livros que li a quem me ensinou as primeiras letras. Até minhas ideias, que às vezes imagino tão particulares, foram sendo construídas nas conversas, nos encontros, nas discordâncias.

Não saberia dizer quanto de mim pertence aos outros.

E há a questão da dignidade.

Tenho uma dificuldade enorme em aceitar que alguém precise baixar os olhos diante de outra pessoa. Que tenha vergonha da roupa que veste, da casa onde mora ou do trabalho que faz. Que precise agradecer por aquilo que deveria lhe ser assegurado sem favor.

Certa vez, vi um homem receber uma refeição. Antes de comer, ele agradeceu repetidas vezes, quase pedindo desculpas por estar com fome.

Fiquei em silêncio. Não consegui esquecer a maneira como segurava o prato.

Eu, pecador, me confesso.

Hoje, emociono-me até com reencontros em aeroportos. Basta alguém aparecer no portão de desembarque e correr para os braços de outra pessoa. Não preciso saber quem são, de onde vêm ou há quanto tempo não se veem.

Às vezes, desvio o olhar para disfarçar.

Já tentei me controlar. Há situações em que seria conveniente manter a compostura, observar os acontecimentos com serenidade, não me envolver tanto com a sorte de pessoas que nem conheço.

Mas então aparece uma criança dando os primeiros passos, um velho aprendendo a ler, um cachorro reencontrando o dono, uma mulher comemorando uma conquista pela qual lutou a vida inteira.

E tudo recomeça.

A verdade é que, depois de tantos anos, minhas tentativas de correção foram poucas e pouco convincentes.

Eu, pecador, me confesso.

E não tenho o propósito de me emendar.

 

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