Manoel ganhou fama de roubar ovos de galinha no capão ou nos galinheiros. Ninguém afirmava ser verdade, mas também ninguém desmentia.
Ganhou apelido de Papo-amarelo, um largato enorme que come ovos da galinha.
Tinha ímpetos assassinos quando passava e a gurizada gritava:
— Papo Amarelo!
Nesse momento, Manoel perdia a compostura. Fervia por dentro. Contorcia-se em cacoetes. Fazia caretas. Piscava. Mordia-se. Gritava e xingava os guris com todos os palavrões de que conseguia lembrar.
— É a mãe, aquela galinha! Vão estudar, seus vagabundos! Se eu pego um de vocês, faço picadinho!
Papo Amarelo gritava e corria atrás dos guris. Nunca conseguiu pegar ninguém.
Nos bares, todos riam. Era a diversão da cidade.
As carolas achavam aquilo uma violência.
— Esse mundo está perdido…
E a violência seguia na cidadezinha. Dia após dia.
— Papo Amarelo!
— É o teu pai, aquele corno manso!
Papo Amarelo, digo, Manoel dos Santos, só se sentia plenamente feliz nos dias de procissão.
Manoel tocava pratos.
Nesses dias, engomava a farda, lustrava os sapatos e areava os pratos até ficarem brilhando como se fossem ouro puro.
Garboso. Peito estufado. Queixo empinado. Orgulho nas alturas.
O mais compenetrado dos devotos.
Conhecia todas as rezas. Sabia todos os cânticos.
A bandinha seguia a procissão, e Manoel seguia a bandinha, marcando passo e compasso com os pratos reluzentes.
Padre rezando. Carolas cantando. Povo seguindo. Bandinha tocando. Manoel marcando.
Tudo na paz celestial. Na harmonia dos corações enlevados.
Até que a gurizada, escondida atrás das árvores da Praça XV, avistava Manoel e começava a gritar:
— Papo Amarelo!
Manoel fervia por dentro. Num esforço quase desumano, segurava-se para não perder a compostura.
Não perdia o passo. Não atravessava o compasso. Não saia do ritmo.
Seguia tocando seus pratos, passo firme, joelho elevado, pé marcando o chão como um surdo de resposta.
Tonitruante, entoava os cânticos acima da multidão.
Hosana…
Todos os anjos…
Papo Amarelo é a puta que os pariu!


Deixe um comentário