Uma vida em cinco paradas

O ônibus parou no primeiro ponto da Avenida Mauro Ramos. Eu estava sentado logo nos primeiros bancos.

Na parada, uma senhora cheia de sacolas.

Levantei e a ajudei.

Sem perceber, ela sentou no meu lugar. Fiquei em pé ao lado.

Me agradeceu muito, de um jeito carinhoso e, sem abaixar os olhos — nem sei se tomou fôlego — emendou uma explicação.

— Aproveitei para fazer uma feira pra minha filha. Ela mora em Rio Fortuna e vai voltar amanhã. Mora lá desde que conseguiu se formar na faculdade. O senhor sabe essas faculdades de gente que cuida das plantações nos sítios? Ela estudou isso.

Parou, respirou fundo, passou a mão nos cabelos brancos, ajeitou as sacolas e, quando pensei que ia se acomodar, ela retomou.

— Meu filho… minha vida não foi sempre essa fartura.

Bateu de leve nas sacolas enquanto continuava a falar. Apesar dos meus cabelos brancos, ela me tratava de “meu filho”.

— Cuidei da minha filha sozinha desde que nasceu. Eu também vim de lá da roça. Vim trabalhar aqui na cidade e conheci o pai dela. Quando viu que eu tava de neném, nunca mais apareceu. Mas eu não, não desisti da minha filha. Trabalhei muito, de tudo. De empregada, de faxina, até de juntar papelão no lixo eu trabalhei, mas consegui dar estudo pra ela.

Passou a manga da blusa no canto dos olhos antes de continuar.

O ônibus passou perto do Asilo Irmão Joaquim, ao lado da capela. Olhou de rabo de olho pra fora, balançou a cabeça, como quem afugenta uma lembrança.

— Ali, seu moço, foi onde recebi um bocado de roupinha pra minha filha, quando ela era pequena. Uma das irmãs de lá sabia que eu precisava. Toda vez ela separava um saquinho de roupa de doação e me chamava. Nunca cobrou nada, nunca fez cara de pena. Só dizia: “leva, mulher, que criança cresce rápido”.

Deu um sorriso pequeno, quase pra si mesma.

— Teve uma vez, o inverno tava brabo, eu não tinha nem gás pra fazer a mamadeira esquentar. Bati na porta da vizinha, uma que nem conhecia direito. A mulher não perguntou nada, me deixou fazer a mamadeira no fogão dela. Até hoje rezo por essa mulher, nem sei se ela ainda é viva.

Ia deixando passar um detalhe. Para surpresa de ninguém, chamava-se Maria. Claro que se chamava Maria.

— O senhor tá vendo onde tem essa igreja evangélica? Ali era um clube grande. Antes faziam festas e bailes de carnaval. Uma vez levei minha menina pra ver o Presépio ali. Ela nem acreditava, ficou parada, de boca aberta, só olhando. Também tinha um Papai Noel. Quando ele chamou ela pra perto, quase não foi, de tão envergonhada. Mas foi, e veio de lá com uma sacola de bala e um brinquedo, uma boneca com cabelo. Chegou em casa, não largava aquela boneca pra nada.  Aquilo ali, meu filho, valeu mais pra mim do que pra ela.

Riu sozinha, um risinho gostoso de lembrar.

— Quando vim da roça, eu não sabia nada, era uma tansa. Qualquer um me engabelava. Minha filha, não. Ela é esperta, se criou na cidade. Sabe se virar. Nenhum vagabundo vai fazer mal pra ela.

Puxou minha mão.

— Moço, por favor, diz pro motorista que eu vou ficar no Banco Redondo.

Entre o ponto em que entrou e aquele onde desceu, o ônibus fez apenas cinco paradas. Bastaram um gesto e pouco mais de doze minutos para Maria, até então uma desconhecida, contar uma vida inteira e ainda me convidar para aparecer qualquer dia.

— Pode vir num dia de chuva, vou fazer um cafezinho e bolinho de banana.

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