Arma secreta

Meu neto Marcelo jurava que tinha visto os dedos de um alienígena saindo do ralo da pia do banheiro. Depois disso, não queria mais entrar ali.
— Eram uns dedos beeeemmm finos e beeeemmm grandes.

Estávamos jogando baralho na sala, um jogo que nós inventamos. O pobre estava se contorcendo de vontade de fazer xixi, mas cadê coragem?

Eu sabia que ele morreria de vergonha se fizesse nas calças, afinal, ele já se considerava grande. Quando alguém tentava impedi-lo de fazer alguma coisa por ser muito pequeno, rebatia na hora.
— Já sou grande, já vou fazer cinco anos — orgulhoso, mostrava a mão com todos os dedos bem abertos.

Então, eu era obrigado a ajudá-lo a vencer aquele medo de alienígenas. Mas, como?

Resolvi ganhar tempo.
— Vou te contar um segredo bem baixinho, mas só nós dois é que podemos saber.

Ele se abaixou e colou o ouvido perto de minha boca.
— Quando eu era pequeno assim como tu, eu via os alienígenas no escuro. Eles eram monstros cheios de dedos e com vários olhos, não dava pra se esconder, eles viam tudo. Daí, falei pro meu avô e ele foi pegar uma arma secreta que tinha guardado desde quando ele também era menino.

— É? — os olhinhos dele brilharam — Tu também tem uma arma secreta?
— Claro, isso é um segredo de família. Fica aqui que eu vou pegar.

E agora? Como é que eu ia sair dessa? Onde encontrar uma arma para proteger contra alienígenas? O que poderia servir de arma contra seres de outro mundo?

Não adiantava pegar alguma arminha de brinquedo, ele não ia acreditar. Também não adiantava tentar assustar o alienígena, porque ele ia se esconder no buraco e voltaria quando eu fosse embora.

Debaixo da casa existe um pequeno depósito de guardar tralhas. Decidi ir lá na esperança de encontrar alguma arma contra invasores de outros planetas. Ele veio atrás de mim, bem grudado nas minhas pernas.

Na passagem pela área de serviço, vi uma bisnaga com vinagre que usamos para limpezas. Sem que ele percebesse, peguei a bisnaga e levei comigo.

Chegamos no porão. Ele ficou na entrada. Entrei e comecei a mexer em caixas, revirei tudo. Deu risada, já foi um bom sinal.

Pedi que me ajudasse a tirar umas caixas. Num canto, havia uma velha mala de couro.

No momento em que se virou para levar as caixas, coloquei a bisnaga lá dentro. Depois, pedi ajuda e puxamos a mala para o meio do porão.

Quando abrimos:
—Eu sabia! Meu avô tinha guardado em algum lugar. Agora sim, os alienígenas vão fugir e nunca mais voltam.

Ele vibrou.

Subimos e fomos direto ao banheiro. Ele ficou fora da porta e eu borrifei cada cantinho com o mega escudo invisível protetor repelente. Caprichei no ralo.
— Tás sentindo esse cheiro forte? — enfatizei — Esse cheiro derrete os dedos dos alienígenas.

Depois disso, sempre que ia ao banheiro, antes de entrar, ele dava duas borrifadas no ar.

Alienígena nenhum ousou voltar.

Imagino que, pelo resto da vida, quando sentir cheiro de vinagre pela casa, vai lembrar do segredo de família e se sentir protegido.


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