Na ponta da língua


Tudo correu exatamente como o Professor Apolônio Temístocles planejou. Desde as primeiras palavras, a abertura com uma provocação que prendeu as atenções, algumas brincadeiras, algumas reflexões.

A plateia está encantada. As pessoas absorveram a mensagem como quem sente uma brisa de ar refrescante.

O propósito já foi alcançado. Agora, só falta o desfecho, uma sentença que vai retumbar e ficar presente em conversas, cafés, aulas, e despertar novas perguntas.

Respira fundo.

As palavras fluem com suavidade. Enquanto fala, tenta lembrar do adjetivo preparado para o fechamento que antecederá o silêncio.

Mas… cadê o adjetivo?
Escorregadio. Não vem à língua. Onde se meteu este bendito adjetivo?

Vasculha a memória, sente o desespero se aproximar.

Ele não pode gaguejar, não agora!
Não pode deixar um branco intrometido encobrir o silêncio dramático tão bem calculado.

O Professor inspira.

Pausa.

— Meu caro leitor, estás pronto para uma aventura? Vem comigo. Nosso amigo Professor precisa de ajuda urgente.

Vamos invadir os trilhões de terabytes que o Professor Apolônio Temístocles acumulou ao longo de toda a vida. Trilhas, atalhos, becos sem saída, lembranças empoeiradas, conexões improváveis. Pontes que parecem ligar nada a coisa nenhuma, mas sempre fazem parte de um todo. Em algum lugar desse caos insondável está escondido o bendito adjetivo.

Uma caverna.
— Platão? Estás por aí?
Ninguém responde.
— Vamos procurar a luz.

Entramos no cérebro do Professor.
Primeiro corredor. Lóbulo direito.
Segundo corredor. Lóbulo esquerdo.
— Por favor, nada de política. Não são ideologias, é anatomia.

Primeiro atravessamos a consciência.

Livros alinhados. Ideias organizadas. Conceitos catalogados. Pensamentos esperando sua vez. Certezas inseguras. Dúvidas resplandescentes.
Platão. Aristóteles. Freud. Marx. Padre Zézinho. Edir Macedo.
— Esse Professor não tem limites!

Bruna Surfistinha se insinua.
— O que é isso? Mas esse Professor, hein!
— Shhh… nada de censura.

Pelé. Garrincha.
Newton. Einstein. Quântica. Big Bang. Anos-luz. Lista de compras. Boletos.
— Sabe o que eu acho?
— Eu, se fosse um adjetivo, também me escondia.
— Tens alguma ideia do paradeiro desse adjetivo?
— Sinto que ele não mora aqui. É muito concreto. Precisamos ir mais fundo.
— Concordo. Vamos descer um pouco mais.

Montanha-russa. Sobe. Desce. Volteia. Gira. Rodopia.
Mergulho profundo. Escuridão. Caos. Bolhas. Raios de luz. Sombras.

Nenhuma placa indica as seções. Nenhum bibliotecário. Nenhum catálogo.
Andares infinitos. Corredores intermináveis. Um labirinto de prateleiras, cada uma carregando lembranças de uma vida inteira. Todas querendo falar ao mesmo tempo. Tudo o que o Professor leu, viu, sentiu — toda e qualquer sensação vivida.
— Isso tem alguma lógica, alguma ordem?
— Só se for inconsciente, mas vai saber!

Uma gaveta se abre sozinha. Cheiro de giz. Voz do professor de português, 1978, batendo a régua na mesa:
— Substantivo é o que é, Adjetivo é o que parece.

Mais uma prateleira. Coração acelera — não o do Professor lá em cima, o nosso, aqui dentro, torcendo.

E ali, entre um cheiro de primeiro beijo, um verso esquecido de Cecília Meireles e o gosto de um café requentado numa manhã de 2003, ele se revela.

Tímido. Arisco. Fugidio.
De repente, consente. Deixa-se ver. Estivera ali o tempo todo, esperando apenas ser encontrado.

Lá em cima, no palco, o tempo espera paciente. Ninguém imagina a frenética busca em curso — uma eternidade numa fração de nanosegundo.

O Professor Apolônio Temístocles abre a boca.
Então o adjetivo surge, macio, preciso. Nenhum outro caberia na dimensão em que a plateia mergulhara.

Cada mente absorve o seu adjetivo.
— Cada cabeça uma sentença.

Ninguém aplaude.
Um silêncio inteiro em suspenso.
Só depois irrompem os aplausos.
O Professor expira.








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