Meu neto andava empolgadíssimo com o Homem-Aranha. Já havia assistido duas vezes no cinema, além de ver tudo o que havia disponível nos streamings.
Ia passar o domingo comigo, então, decidi assistir ao filme no sábado à tarde. Queria ter repertório para conversar e para provocá-lo.
Pego o celular. Escolho cinema, horário e poltrona.
Pipoca? Nem pensar, detesto o reflexo condicionado por esse marketing ruminante.
Sou direcionado para o pagamento. Na hora de concluir, surge uma mensagem discreta: “Opção não está disponível no momento.”.
Tento outra sessão. Depois outro cinema. Nada.
Vasculho o aplicativo e encontro a explicação: seus dados recentes indicam sono insuficiente, frequência cardíaca alterada e sinais de estresse. Atividades de alta estimulação audiovisual não são recomendadas.
O sistema sugere repouso, leitura leve ou caminhada moderada à sombra.
Eu só queria ver Homem-Aranha para conversar com meu neto. Qual o risco disso?
Lembrei que o relógio registra batimentos, sono, temperatura e passos. Tirei e, por via das dúvidas, desliguei o relógio.
Tentei novamente.
— O ingresso continua indisponível. Na ausência de dados fisiológicos atualizados, prevalece a última recomendação válida.
Percebi uma onda de irritação se aproximando. Agora sim, eu ia ficar estressado. Se a intenção do sistema era evitar estresse, ia conseguir exatamente o contrário.
Eu queria estar à altura de meu neto. Então, para driblar o sistema e a irritação, decidi seguir o antiquado método analógico: fui, a pé, comprar o ingresso no guichê.
Chego no shopping. Tudo funciona normalmente: portas, estacionamento, elevador. Todos os caminhos se abrem.
No guichê, peço o ingresso para o Homem-Aranha. A funcionária escolhe a sessão e o assento, mas o sistema não conclui a venda.
Há lugares disponíveis, mas não aparecem para mim.
Devo estar ficando paranoico.
— Moça, o que é esta luzinha vermelha piscando aqui no caixa de pagamento?
— É uma câmera de identificação automática. O senhor não precisa mais apresentar documentos, ela já o identifica e cruza seus dados com outras informações.
A funcionária é gentil e tenta me ajudar, mas não consegue. Ela não me impede de entrar. Simplesmente não consegue abrir aquela porta.
Opção indisponível.
Discutir com ela seria inútil — com a máquina, seria insano.
Agora sim, a irritação está ali, tomando conta. Resolvo tomar um café.
Na máquina de autoatendimento aparecem descafeinado, chá, água e suco. Café mesmo não aparece.
O homem na máquina ao lado compra um duplo sem dificuldade.
Pulo para a máquina do lado. Mas a opção de café, só café, sem adjetivos, não existe.
Uma inquietação me percorre:
— Será que o mundo aparece para cada pessoa de um jeito personalizado, com filtros?
Hora de almoçar.
Agora, em todo lugar, é essa maldição de cardápio digital — um código sei lá o quê.
No cardápio digital aparecem saladas, peixe, legumes e pratos leves.
Na mesa ao lado chega um hambúrguer com batatas. Só para provocar, e testar minha teoria, decido pedir o mesmo. Chamo o garçom. Ele procura no tablet que tem à mão, mas o prato não aparece. Opção indisponível.
O restaurante vende.
Outras pessoas podem pedir.
Eu não.
Ninguém me proíbe, ninguém me diz não. Apenas não existem caminhos para eu conseguir o que quero.
Opção indisponível.
Saio do shopping.
Por ironia, lembrei da recomendação do celular: caminhada moderada.
Fui para o parque.
Escolhi a trilha mais longa, a curta é triste — calçadas planas, certinhas, sem desafios, sem riscos, insípidas, incolores — água de salsicha.
Um drone passa acima das árvores.
Adiante, um portão barra a passagem. O trecho está temporariamente fechado para manutenção.
Desvio. Mais à frente, aspersores começam a irrigar outro caminho. Mais uma passagem temporariamente fechada. Sigo em outra direção.
Os caminhos disponíveis me conduzem para uma área tranquila e sombreada, com bancos.
Parei diante de um deles.
Percebi que cheguei exatamente até a atividade recomendada pelo sistema desde o começo: descansar na sombra.
Não sentei.
Resolvi voltar para casa a pé, escolhendo meu próprio caminho.
Uma rua está em obras. Outra tem o trânsito interrompido. Uma passagem pela praça está fechada.
Cada obstáculo, isolado, é banal.
Mas todos juntos parecem formar um corredor.
Quanto mais procuro caminhos alternativos, menos encontro.
Nada me empurra. Ninguém me ameaça. Apenas as opções e os caminhos vão desaparecendo.
O Relógio, o Plano de Saúde, o Cinema, a Prefeitura.
Todos apenas informam, recomendam, ajustam.
Ninguém decidiu nada.
Não existe para quem reclamar.
Não existe contra quem se rebelar.
Decidi passar o resto da noite fazendo exatamente o contrário do recomendado.
Tento assistir a um filme de ação em casa. Opção indisponível.
Procuro manualmente. Opção indisponível.
Vou pedir uma pizza. O aplicativo oferece saladas.
Decido sair novamente.
A porta de casa continua aberta. Pelo menos, não estou preso.
Mas aonde ir? O que fazer? Que opções estarão disponíveis?
Sento na poltrona.
Para o meu bem, tomo uma lapada de cachaça — devagarinho.
A iluminação diminui suavemente. A televisão sugere música tranquila.
A poltrona reclina um pouco. A temperatura está agradável. O cansaço vai tomando conta suavemente.
Aos poucos, os batimentos diminuem.
O relógio, abandonado sobre a mesa, acende discretamente: “Indicadores normalizados”.
Pego o celular e, curioso, abro o aplicativo do cinema.
A compra do ingresso está disponível.
O Homem-Aranha está novamente ao meu alcance.
— Agora?
Decido não ir. Afinal, quem manda na minha vontade sou eu!
Meu neto vai adorar me contar o filme.
Depois, vamos pular, saltar, correr.
Fugindo das teias.

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