Quem nunca sentiu dor de dentes não sabe como é bom não sentir dor de dentes

Zenão era um homem de certezas. O dedo indicador, sempre estendido, era seu cetro.

Apontava para o mendigo na calçada e sentenciava:

— Preguiça. Vagabundagem.

Para a mãe solteira no ponto de ônibus:

— Sem-vergonhice. Falta de família.

Para o rapaz que chorava:

— Frescura.

Herdeiro. Bem alimentado. Saudável. Nunca apertara o orçamento até o último centavo. Nunca sentira o peso de um dia sem esperança. A geladeira nunca esteve vazia. Um exército de empregados para satisfazer os desejos.

Nunca perdera dinheiro porque nunca apostara em nada. Nunca sofrera decepções porque não admitia incertezas. Nunca tivera o coração partido porque nunca o colocara verdadeiramente nas mãos de ninguém.

Juiz do suor alheio, carregava certezas. Eram parte do vestuário.

“Felicidade é uma escolha”.

“A vida é uma equação simples: esforço igual a resultado”.

 

Então veio o nó.

Um nó na carne. Uma dúvida no meio de tantas certezas.

Um caroço. Primeiro, invisível. Depois, um sussurro no exame. Um sussurro, edulcorado: “CA”.

— Como assim, um tumor? Eu sempre segui todos os cuidados. Tenho vida regrada. Tumor? Eu?

Zenão, então, descobriu o labirinto de exames e salas de espera. As cadeiras, mesmo macias, se tornando desconfortáveis. O ar gelado impregnado de incertezas. A espera. A espera. A espera. Mulheres com lenços na cabeça, homens com olhos que olhavam o ontem.

— Isso não é para mim — pensou. — Eu me cuidei. Comi salada. Fiz academia.

Mas o tumor não leu o manual.

No limbo das salas de espera, conheceu Jurema. 63 anos, fumante, ria de tudo, até da própria calvície. Zenão a julgou em silêncio — “ela pediu por isso”. Até o dia em que Jurema contou que perdera o filho aos 19, num assalto, e começara a fumar para não chorar no meio da rua. Sentiu um contração no estômago.  Percebeu-se apontando o dedo contra Jurema sem conhecer toda a história.

Ele não tinha respostas.

Conheceu Caio, 28 anos, atleta. Linfoma aos 26. Corria 10 km por dia, nunca bebera, nunca fumara.

— Você teve sorte, descobrimos cedo — disse o médico.

— Ou azar — completou Caio, rindo de lado.

Zenão não tinha sentença para Caio.

Meninas, meninos, até bebês. Frágeis. Sem cabelo. Brincavam com vazios — copos, caixas, vasilhas.

— Crianças com tumor?!

As certezas de Zenão sofreram um abalo sísmico. Que objetivo podia haver na doença de uma criança?

O dedo indicador, pela primeira vez, ficou recolhido. Apontando na direção do próprio Zenão.

Na noite anterior à cirurgia, Zenão olhou para o teto branco do quarto compartilhado. Ao lado, um senhor roncava. Do outro, uma jovem chorava baixinho ao telefone. Ele não conseguia dormir. Não por causa do barulho — mas porque, pela primeira vez, ele não sabia o que viria depois.

Acordaria? Como o corpo reagiria?

Pela primeira vez, suas certezas encheram-se de dúvidas.

A cirurgia correu bem. O tumor era benigno. Zenão voltou para casa com uma cicatriz no abdômen e pontos de interrogação na alma.

 

Certo dia, viu um jovem no parque, deitado na grama, olhando o céu. Antes, teria dito: “Perda de tempo”. Agora, sentou-se ao lado dele e tentou olhar o céu.

— Você está vendo alguma coisa? — perguntou.

O jovem apontou para uma nuvem.

— Uma baleia — disse. — E você?

Zenão olhou para cima. Não viu baleia nenhuma. Apenas uma certeza, aquilo era uma nuvem. Mas, pela primeira vez na vida, não deu a resposta pronta.

— Não sei — disse. — Me mostra de novo?

O jovem sorriu e apontou outra.

— Ali, um cavalo galopando. E aquela, mais à frente, parece um castelo.

Zenão olhou. Apenas nuvem. Disforme, branca, indiferente.

Franziu os olhos. Esforçou-se. Nada. Só nuvens. O rapaz via baleias, cavalos, castelos. Zenão via nuvens. Apenas nuvens.

O incômodo veio como um calafrio.

Como?

Ele, que sempre soube interpretar o mundo — sempre leu a vida como um manual aberto — não conseguia ver o que um garoto qualquer via numa tarde de vento.

Não era só a nuvem. Era a incerteza. Nuvens mudam de forma com os ventos.

Para ver uma baleia na nuvem é preciso ter imaginado uma baleia. Ser capaz de ver algo que não está lá. É preciso ter sido criança.

Zenão nunca fora criança. Foi sempre um adulto em miniatura. Sempre com a resposta antes da pergunta. Sempre sabendo mais que os outros.

O vazio que sentiu naquela tarde de sol era o mesmo do choque do tumor. O mesmo gelo na barriga. A mesma pergunta surda:

— E se tudo que eu acredito não for tudo?

 

Ele olhou para trás. Viu uma fila de certezas, uma estante de respostas prontas, a vida inteira de julgamentos sem ouvir. Mas não encontrou uma dúvida. Uma dor no peito por amor. Um erro que o tivesse feito rir de si mesmo. Um risco que valesse a queda.

Jamais sentira, na carne ou na alma, a dor que apontava nos outros.

A pior sensação, descobriu ali, não era a dor. Era o não-saber como teria sido. A ausência de tentativa. O fantasma de uma vida que ele poderia ter vivido, mas escolheu apenas criticar.

 

O jovem se levantou, deu um tapa na grama e sorriu.

— Tchau, senhor. Fica olhando as nuvens. Uma hora você vê.

E foi embora.

Zenão ficou. Deitou-se — ele, que nunca se deitara na grama.

Olhou para o céu.

Ainda eram apenas nuvens.

Continuou olhando.

 

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